12.12.10

Um jardim botânico pelas ruas do Grajaú

 Por menos generosos que tenham sido os anos, o Grajaú continua mantendo o seu charme em uma área que se tornou vulnerável à violência 

O Pico do Papagaio, que também é conhecido como a
Pedra do Andaraí, no cruzamento das ruas Canavieiras
e Caruaru. 

Mapa com a rua em destaque
Eu reluto muito em ir ao Grajaú porque me entristece passar por lugares que caíram em qualidade, assim, de uma hora para outra. O problema, de fato, é chegar ao Grajaú, ou seja, passar pela abandonada Vila Isabel ou pelo esquecido Andaraí. Dar de cara com o Largo do Verdun e adentrar uma daquelas alamedas para cima da Borda do Mato é tarefa fácil para mim. Gosto de verdade do Grajaú e por mais decadente que ele esteja (o Rio todo está, convenhamos!), é sempre um prazer caminhar pelas suas ruas e praças. 


Violetas no jardim



Bebericos na Professor
Valadares
Grajaú Country Club
Comecei a minha caminhada sem um rumo certo. Desci a Rua Canavieiras até dar uma parada para descansar do sol - na verdade, eu queria mesmo era um ângulo interessante para admirar o Pico do Papagaio, mais conhecido como a Pedra do Andaraí. De um lado, estava o Grajaú Country Club. Do outro, uma esquininha muito simpática, rodeada de canteiros com violetas. Quase nesse cruzamento, havia também uma espécie de joint local, com mesas e guarda-sóis ao ar livre. O público, na faixa acima dos 35, bebericava e petiscava sob o sol escaldante de dezembro. Eu, particularmente, detesto o calor, mas ali estava muito agradável. São muitas árvores e plantas e isso ameniza a sensação térmica. Adentrei mais a rua e decidi passear por ali mesmo. Ela é a Rua Professor Valadares


 Enquanto as folhas secas se espalham em forma de tapete pela Rua Professor Valadares, árvores imponentes me ofereceram sombra para iniciar o meu percurso. 

 Observe bem estas casas. Uma em estilo suíço e outra mais semelhante aos modelos coloniais. O Grajaú mistura diversos estilos arquitetônicos. 


Casas e o Pico do
Papagaio, ao fundo
Um dos poucos prédios
Muitas casas e alguns poucos edifícios, que acabam tornando-se todos espigões, mesmo que tenham apenas cinco andares. Não só na Professor Valadares, mas como em todo o bairro, vê-se muitas casas "de vovô & vovó". São aqueles casarões antigos, de apenas um andar, com uma área externa, jardim e, em geral, um carrão antigo estacionado ali. Opala, Passat, assim como fusquinhas bem conservados. São aqueles tipos de residência da classe média-alta no passado e que hoje lutam contra o tempo. Muitas estão precisando de ajuda na conservação; outras, estão tão bem na fita, que parecem até pousadas ou pequenas estalagens. E as casas em estilo suíço? Do nada elas aparecem! Me supreende porque não são tão comuns no Rio.


Veja como os jardins são valorizados ao longo da Rua Professor Valadares, principalmente no primeiro trecho, entre a Rua Canavieiras e a Avenida Júlio Furtado. Nos dois primeiros jardins, à esquerda, criou-se um espaço de passagem para os apressadinhos que gostam de cortar caminho. Será que respeitam essa trilha?
 
As casas nas proximidades da Avenida Júlio Furtado



Moça caminha sobre
tapete de folhas
É ou não um suave
jogo de cores?
Entretanto, por mais bonitinhas que as casas da Professor Valadares sejam, o destaque mesmo da rua fica para os jardins e árvores. Lembro-me de ter comentado com um amigo, há pouco tempo, que as estações do ano não são muito bem definidas aqui no Brasil, diferentemente de outros lugares. Não sei se é porque estou observando mais atentamente - a questão é que eu sinto a Primavera fazer efeito no Rio de Janeiro pela primeira vez aos meus olhos. Muitas das ruas arborizadas que tenho percorrido estão floridas. Na Rua Professor Valadares, por acaso, estava uma mescla de Primavera com Outono: muitas flores, embora muitas folhas caídas ao longo da via. Uma variedade de folhas e flores, em diferentes formatos e cores. É uma pena eu não saber nada de botânica. Deixo as fotos para que vocês as apreciem, e, quem souber seus nomes, ficarei grato em aprendê-los. 


 Casas e flores

Algumas das casas lembram um pouco aquele estereótipo de "casa da vó". Os jardins do Grajaú, por outro lado, oferecem um visual bucólico e sofisticado muito atípico aos bairros da Zona Norte. 

O Pico do Papagaio, na esquina
com a Mearim
Olha, quero voltar a falar sobre o Pico do Papagaio. Ele pode ser visto de muitos lugares: Linha Vermelha, Linha Amarela, Ponte Rio-Niterói, Maracanã, Santa Teresa, Avenida Presidente Vargas. A rocha é marca registrada do Grajaú, e na Rua Professor Valadares compõe, junto das flores, um cenário extraordinário. É muito bonita a paisagem, de verdade. Para mim, é um dos melhores cenários naturais cariocas. Pouco se fala no Pico do Papagaio - e na sua imponência - por ele estar fora do circuito turístico da cidade. Como disse uma vez, no primeiro post do blog (Bucolismo na Zona Norte), a Pedra do Andaraí está para o Grajaú assim como a Pedra da Gávea está para São Conrado. Qual das duas eu prefiro? Vá! Apesar do Grajaú não ter o marzão que São Conrado tem, o impacto que o Pico do Papagaio produz no paisagismo do Grajaú é gritante de bonito. Pretendo falar mais sobre essa rocha em um post à parte. 


 Já mais para o final da Professor Valadares, começam a aparecer paredes grafitadas em convivência com as mesmas casas das do início da rua. 


Praça Malvino Reis ao fundo,
onde termina a Professor Valadares
A Rua Professor Valadares é constante em paisagem. No cruzamento com a Rua Mearim começam a aparecer alguns botecos, típicos da Zona Norte, mas nada que agrida ao bucolismo intocável do bairro. Porém, verdade seja dita: quanto mais próximo da Praça Malvino Reis, mais se percebe a ação de vândalos. As casas e prédios estão um pouco pichadas, os canteiros já não muito bem cuidados e o ruído do trânsito pesado da confluência das  ruas José do Patrocínio e Teodoro da Silva se faz presente. Como em toda cidade grande, temos de viver com problemas desse tipo; agora, ter uma ilha de calmaria feito o Grajaú, é um troféu dos melhores. 

Gostou da Rua Professor Valadares? Mora por ali? Deixe seu comentário!

13 comentários:

Glória disse...

Ahhhh... eu não acredito!!!!!! Vc esteve pertinho de onde eu morei, na rua Visconde de Sta Isabel, 632, em frente a rua Canavieiras. Que máximo!rs
Realmente, eu fiquei muito, muito emocionada.
Pedro, pode acreditar, foi o bairro mais LINDO e PERFEITO do Rio de Janeiro. Claro, foi lá que eu nasci!rs
Este bairro todo foi meu, Pedro, sem nenhuma arrogância.
Nossa, que saudade.
A minha casa era anos 60, estilo Brasília. Ela tinha muitas escadas, muitas flores, um coqueiiiiro e muito espaço para brincar de ser feliz. E eu fui, amigo. Eu fui muito feliz lá.
Mas, no entanto, a arquitetura da casa foi completamente descaracterizada. O que foi uma pena!
Adorei a tua postagem. Ora, não era para menos!
Beijos com muitas flores!
Glória

Anônimo disse...

Obrigado pelas visitas e comentários no Cinema é Magia. Aproveitei e citei este seu post lá hoje. Grande abraço !

Tommy
http://cinemagia.wordpress.com

Anônimo disse...

Ops... na verdade foi o post seguinte, sobre os cinemas. Comentei no local errado, mas continua valendo o

abraço
Tommy
http://cinemagia.wordpress.com

MiH disse...

Acho incrivel como nosso olhar viciado nao nos deixa apreciar a beleza da cidade. Vc tem q vir a minha para me ensinar a ver a apreciar =) Parabens Pedrooo!!

viniaba disse...

viva a região serrana da zona norte do rio!

Leo disse...

O Grajaú é sem dúvida o melhor bairro da Zona Norte em termos de quietude, segurança,etc. É uma ilha mesmo. Todos deviam vir à praça Edmundo Rego em uma manhã de domingo. Feira de artesanato e área de lazer para as crianças. É apaixonante. Lembra em tudo uma cidade do interior, no que há de melhor.
Abs

Atelier Regina Gomes disse...

Ahhhh! O Grajaú é uma delícia. Para quem mora na zona sul e tem mêdo de atravessar o túnel, eu diria que o nosso bairro é semelhante ao bairro da Urca, porém sem praia e com mais espaço para caminhar e respirar. Uma beleza! Quem recusa-se a vir por aqui ou que não conhece, não sabe o que está perdendo.
A Rua Professor Valadares, eu reputo especial, até porque moro nela e sou a "dona" do jardim que tem uma trilha que foi totalmente elaborada, assim como a escolha das plantas (uma diferente da outra) por meu marido que ama mexer com a terra e ama a natureza (eu também).
Pois é.... o nosso caminho, ou a nossa trilha, é muito frequentada por crianças que acabam convidando seus pais, avós e babás a passearem por lá e isso ,elas jamais esquecerão, pois o que uma criança faz com grande satisfação, leva para toda a vida.

Flora Maria disse...

Fiquei bastante emocionada ao ver fotos tão lindas do meu querido Grajaú !
Ele é sim, a Urca da zona norte !
Eu e meu marido fizemos parte da Associação de Moradores, lá pelos anos 80 e lembro da felicidade que eu sentia ao caminhar por suas ruas tão verdes e tão bonitas.

Morei na Engenheiro Richard e depois na Júlio Furtado, de onde saí em 1991 para vir para Minas. Meus filhos estudaram no Colégio Companhia de Maria, frequentamos o Country, comprávamos no Supermercado Olá, e íamos na lindíssima igreja de N. Sª do Perpétuo Socorro.
Ótimas recordações de um dos mais bonitos bairros do Rio...

Anônimo disse...

Falem também do total abandono da Prefeitura no bairro.

Asfaltos totalmente desgastados, iluminação precária, enchentes em certos trechos que a Prefeitura nem pensa em tentar fazer uma obra.

Anônimo disse...

As críticas são importantes também, moro na Julio Furtado, exatamente no trecho onde qualquer chuva mais forte alaga tudo e o que é pior, fica um tapete de areia que desce pela Caruaru (outra rua que também fica totalmente alagada e está a cada dia mais abandonada), é triste ver isso. Pegar um pedacinho do Grajaú e elogiar é muito bom, mas sejamos realistas, este bairro está precisando de uma revitalização total.

Pedro Paulo Bastos disse...

Caro Anônimo,
Realmente o que você falou faz sentido: o Grajaú não tem tido muito apoio da Prefeitura em sua conservação. Só discordo levemente em um ponto seu: "pegar um pedacinho do Grajaú e elogiar é muito bom", não só pelo sentido de mostrar que é puramente bonito, mas sim, também, uma forma de expor a todos o quanto estão destruindo a cidade e seus bairros. E, nesse ponto, nem incluiria só a Prefeitura, não... alerto gente como eu e você, cidadãos, em que muitas das vezes também colaboramos com o desgaste certas áreas quando não nos unimos em associações, quando, sem querer, não colocamos o lixo no devido lugar, quando não preservamos os jardins, as calçadas, o mobiliário urbano...
Quando mostra-se o feio pode ser belo, é mais fácil de que tomamos maior consciência na questão dessa "revitalização total". Depende em grande parte de nós mesmos.

Anônimo disse...

Realmente o Grajau é um lindo bairro com cara de interior. Moro há um ano na Av Engenheiro Richard e não me canso de admirar as belezas naturais do bairro. Porém, como dito em alguns comentários anteriores, o bairro me parece esquecido pela prefeitura. As ruas precisam de melhor asfalto e iluminação. Outro ponto que me deixa preocupada é a qtd de moradores de rua que chegaram ao bairro nos últimos meses. Tentei enviar email para a prefeitura mas sempre acusa erro. Nós, moradores, ex-moradores e admiradores do Grajau precisamos cobrar da Prefeitura. Inclusive rigor na fiscalização sobre a invasão da reserva por construções irregulares. Prefeito é melhor impedir o avanço do que tentar retirar a força mais tarde!

Wellington Mafra disse...

Olá Pedro,

Belíssima descrição do Bairro.
Já passei rapidamente pelo Grajaú mas pretendo voltar num Domingo pra conhecer a pé. Quem sabe morar. Não sou do Rio e hoje moro em Laranjeiras.

Você escreveu o post em 2010, de lá pra 2017 como está a segurança no Bairro e acesso via Vila Isabel ou Andaraí?

Abç