23.3.11

"(...) o bairro das Laranjeiras, satisfeito, sorri..."

 A vista da Rua General Glicério no seu início, pela Rua das Laranjeiras, a principal da região.

Mapa do trecho
percorrido
A música "All Star", de Nando Reis,  também interpretada pela imortal Cássia Eller, retrata de forma curiosa como o bairro de Laranjeiras se sente no momento em que chega a personagem da canção para encontrar a(o) amada(o). "Aperto o doze que é o seu andar, não vejo a hora de te encontrar"... Desde segunda-feira, 21 março, que essa música não me sai da cabeça, principalmente porque estive no próprio bairro de Laranjeiras, aproveitando meu último dia livre antes de começar a trabalhar. Aproveitei para desbravar um pouco os detalhes da Rua Alice, do Largo do Boticário, da Rua Alegrete e da belíssima General Glicério. Passo tão batido por essa parte do bairro que não tinha ainda percebido como ali é interessante e bonitinho.

Restringi este post à Rua General Glicério porque, além de ser uma das ruas mais lindas da cidade, ela tem toda uma história. Até meados da década de 30 do século passado, a região da General Glicério era, na verdade, a antiga fábrica da Companhia de Fiação e Tecidos Aliança. Com a hipervalorização dos terrenos na Zona Sul e a "vontade" de expulsar a população operariada para os subúrbios, a fábrica foi desativada e ali construiu-se um conjunto de ruas bem desenhadas, quase em forma de condomínio, conhecida por Jardim Laranjeiras. Na parte "alta" da Rua General Glicério foram erguidos edifícios de gigantesco valor histórico e arquitetônico, separados um dos outros, rodeados de esplendorosos jardins.

 Subindo a General Glicério: a casa amarela, uma das poucas na rua invadida por prédios, funciona como creche.

Venezianas
Arborização intensa
No primeiro trecho, entre a Rua das Laranjeiras e o encontro das ruas Belisário Távora e Professor Estelita Lins, a General Glicério tem um ar meio de ruas de Copacabana. Aliás, Copa parece ser um pouco sombria, pela significativa quantidade de árvores dispostas em cada rua.  A General Glicério também é assim, bem arborizada e escura, com muitos prédios altos, milhares de janelas com venezianas e um considerável comércio no térreo destes mesmos edifícios bem ao início da rua. A loja especializada em laticínios, Normandia, parece ser bem tradicional na rua e no bairro.

A rua vai ficando mais feliz lá na esquina da Rua Belisário Távora, onde está a Escola Municipal Albert Schweitzer e uma placa de trânsito pequenina, indicando Botafogo para a direita. Cuma? Botafogo tá pra outra direção! Forcei o meu quebra-cabeça-cartográfico-mental em busca de alguma lógica para aquela indicação. Foi aí que eu lembrei que o morro Mundo Novo, de ruas pra lá de sinuosas, é bem perto dali e termina na Rua Assunção, bairro de Botafogo. Taí a alternativa de caminho!

Início do trecho mais bucólico da Rua General Glicério. A placa indica "Botafogo" à direita, mostrando a alternativa de caminho pelo Morro Mundo Novo.

Praça Jardim Laranjeiras
Mas peraí... nessa mesma esquina há mais coisas a serem apreciadas! Os prédios, até então totalmente retangulares, ganham linhas mais suaves e circulares, que obedecem ao contorno das ruas que os abriga. Em frente, a General Glicério ganha duas pequenas pistas com um canteiro central bem espaçoso, cheio de cadeiras, bancos e... carros estacionados! A praça em questão é a Jardim Laranjeiras, rodeada de edifícios simpáticos e um compacto comércio local, como farmácia, lavanderia e um restaurante-lanchonete. Isso tudo enfeitado com o vai-e-vem das linhas 183 e 184 da Intersul, antiga São Silvestre, intercalando o amarelo novato com o marrom-bege da lataria antiga.

 A Rua General Cristóvão Barcelos circunda a General Glicério que, a partir deste trecho, transforma-se em um lugar totalmente diferente em relação ao seu início.

Jardins da Gen. Glicério
Ah! Chegamos na melhor parte; quem conhece, sabe! As calçadas da Rua General Glicério, agora, ganham uma espécie de passarela coberto por um tapete de pedras portuguesas brancas e pretas, formando o símbolo de uma flor com quatro pétalas.  Acostumado com aqueles canteiros pequenininhos, miúdos e mixurucas, por ali os jardins são verdadeiros campos floridos cercados por grades charmosas, cheias de critério. O caminho para pedestres, a tal "passarela" descrita, é margeada por dois destes vastos jardins, separando os transeuntes do tráfego da via e da portaria dos edifícios. Embora o nome do bairro seja Laranjeiras, por ali tem-se muitas mangueiras, palmeiras, pinheiros, oitis, jacarandás e ipês-amarelos.

 Diversas espécies de árvores e plantas habitam a General Glicério. À direita, observe que os edifícios estão em um plano superior da calçada, protegidos por um jardim.

Edifício Paquetá
Edifício Timbaúba
Os edifícios deste trecho da General Glicério foram tombados até o ano de 2002. E não é para menos: eles são lindos! Este trecho da Zona Sul, aliás, é muito marcante para os admiradores destes tipos de prédios erguidos entre os anos 40 e 50. São altos, com escadas de acesso protegidas por corrimão de bronze; a entrada para a portaria é sempre um trabalho caprichado de arte que se faz ver pelo desenho do ferro, muitas vezes entrelaçado. A grande maioria está numa parte mais alta da calçada, conferindo um aspecto, obviamente, superior em relação à rua e ao pedestre que não é morador.

Embora estes edifícios sejam bastante intocáveis pela sua majestuosidade, ao longo dos anos, o térreo deles foi sendo compartilhado com alguns tipos de comércio relevantes para os moradores da rua. Um bar sem nome, caracterizado por uma placa aparentemente dos anos 80 do refrigerante Grapete; uma confeitaria, a Rainha das Laranjeiras, ao lado do edifício Triunfo; um brechó, laboratórios médicos, agências imobiliárias e, o mais destacado dali, a sofisticada loja de vinhos L'Orangerie, voltada para um público de maior poder aquisitivo.

A confeitaria Rainha das Laranjeiras é um dos comércios locais nesta parte de Laranjeiras. Mesmo com a imponência e "intocabilidade" dos edifícios, o comércio da Zona Sul parece não ter espaço suficiente nas ruas e, desta forma, proliferam-se no térreo dos prédios.

A Rua General Glicério termina no encontro das ruas General Cristóvão Barcelos e Professor Ortiz Monteiro, que fazem um círculo atrás dela (confira no mapa). Lá parece ser, de fato, o ponto final das linhas 183 e 184, que fazem o percurso entre a Central e Laranjeiras, agora com duas versões - uma expressa, que vai pelo Túnel Santa Bárbara, e a tradicional, que vai pelo Catete. A verdade é que eu sai estonteado de lá pois adoro esses recantos bucólicos no meio da selva que é a cidade grande. Se a General Glicério tivesse menos carros estacionados e menos cocô de cachorro em suas pedras portuguesas, seria perfeita. Mesmo assim, aludindo à canção, ao sair dali, satisfeito, sorri. 

9 comentários:

igor disse...

Minha namorada mora em Laranjeiras e bem próximo a General Glicério, por isso tenho frequentado bastante esta região....é uma rua muito bonita mesmo, e segundo uma matéria da Veja Rio, a mais valorizada do bairro também, com apartamentos chegando a valer R$900.000,00........

Joel Bueno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Joel Bueno disse...

Um ótimo passeio, como sempre. Desta vez, com direito a um atalho para Botafogo, que eu não conhecia, com meus cinquenta e tantos anos de Rio. Qualquer dia vou lá, fazer o roteiro ao vivo.

Nuno disse...

Ótima análise, Pedro!
Tenho a honra de viver nessa rua, mais exatamente no Triunfo, falo com toda a minha experiência de vida e meus conhecimentos de outros locais da cidade que dificilmente existe alguma outra rua que se equipare à General. Acordar com o canto dos pássaros, caminhar pelas calçadas bem preservadas e poder ver crianças jogando bola da rua é algo que só é visível em poucas ruas da cidade. Claro que tem lá seus problemas, que vão além do cocô e xixi dos cachorrinhos de madame que sujam a rua e enferrujam o gradil dos jardins, como a baderna das vans na Praça e certos episódios de violência como foi o assassinato de um motorista da 183 aqui no ponto final duas semanas atrás, mas em termos gerais o balanço final é tão positivo que se tornou um dos locais mais valorizados da Zona Sul. Tanto que nos últimos 10 anos houve um surgimento de novos prédios nas ruas próximas à General, e com os novos moradores veio também a necessidade da modernização e diversificação do comércio, possibilitando o surgimento da L'Orangerie, do café que existe na esquina da General com a Cristóvão Barcelos em frente a Praça, da modernização da Rainha das Laranjeiras (era de posse de um português morador da Cardoso Júnior há mais de 40 anos e foi recentemente a um jovem empreendedor que assumiu a reforma) e do mercado ao lado, e de outros exemplos. Parabéns pelo trabalho!
P.S: O bar com o anúncio da Grapete é o Bar da Vera, embora já tem algum tempo que ela não aparece lá. De vez em quando costumo fazer uma pré-night lá antes de sair.

Zé Ribeiro Jr. disse...

Boas lembranças de um dos mais agradáveis bairros cariocas. Tenho especial predileção pela Rua das Laranjeiras. É dali o primeiro ar que encheu meus pulmões (Casa de Saúde Santa Maria).
Parabéns pelo competente trabalho.
Zé Ribeiro

Atelier Regina Gomes disse...

Olá Pedro.
Adoro a Gal. Glicério. Frequentei por mto tempo aquela rua - ia sempre a loja de uma amigona, que é exatamente onde hj funciona o brechó, q aliás manteve o nome. Lá a mulherada se divertia e, é claro, gastava $$$ - rsrs
Ainda tenho duas queridas amigas q moram na Gal. e de x em qdo, dou uma passadinha por aquela rua deliciosa.
Vc tem q ir aos´sábados q tem a feira livre, onde a feira de artesanato integra-se a esta. É bonito de se ver e frequentar, pois as artes q lá estão expostas tem um nível mto bom (pelo menos assim era).
Vc deve conhecer tb a pequenina rua Ribeiro de Almeida, q é uma graça - sem saída e c/ uma guarita na entrada, guarda casinhas e edifícios antiguinhos todos "plantados" em paralelepípedos. Eu adorava subi-la a pé, observando os detalhes.
Então está dado o meu parecer sobre o seu post.
Até breve! Continuo te devendo fotos, eu não esqueci.
E faça o favor de me seguir, tá certo?
Bjs

Felipe Bastos disse...

Minha professora mora nesse edifício Timbaúba... Lindíssimo! Adoro esse canto do Rio. Abraço!!

João Carlos disse...

A região da General Glicério é fruto de um empreendimento imobiliário que resultou na urbanização cuidadosa do local. Antes havia uma fábrica.
A mesma empresa fez também o jardim Guanabara na Ilha.
Pena que há muito poucas urbanizações deste tipo no Rio.
Frequentei muito a região onde moravam amigos e namorada. Mas já lá se vão bons 35 anos...
Saudações cariocas

Emigrante no Brasil disse...

Esta é a minha Rua à longos e apraziveis anos de minha existencia no Rio de Janeiro. Licinio L. Resende. Em 21/06/2013