4.3.11

Marechal Hermes na contemporaneidade (parte 2/2)

Colégio Estadual Santos Dummont
[Continuação] No cruzamento da General Cordeiro de Farias com a Rua Engenheiro Emílio Baumgart já é possível avistar os fundos de dois prédios tradicionalíssimos em Marechal Hermes: os colégios estaduais Santos Dummont e Evangelina Duarte Batista. Eles ficam de frente para a praça circular 15 de Novembro e se assemelham  em estilo e função original às escolas Júlio de Castilhos e Manoel Cícero, no Baixo Gávea. Inclusive aquele pedaço da Gávea também foi resultado de um projeto de vila proletária no governo de Hermes da Fonseca.


 A entrada do Colégio Estadual Santos Dummont e um breve panorama da Praça Quinze de Novembro, ao lado.

A Praça 15 de Novembro é bem grande, plana e sem obstáculos. Como assim sem obstáculos? É, sem nada. Não tem jardim nem chafariz, não tem brinquedos nem coreto. No entanto, a organização da praça é vista através do piso, dos fradinhos e do contorno em gramado que protege a rua em relação ao núcleo da praça. Sem muitos atrativos, ela acaba sendo uma área de passagem para pedestres e ciclistas.

 Veja como a Praça Quinze de Novembro é um verdadeiro território vazio. Mesmo assim, percebe-se que ela não é uma praça qualquer; ela tem todo um desenho, que pode ser identificado pela variação das cores e tipos de pisos e pelo gramado.
 
Comércio de bairro e
papo de portão
Mais adiante, a General Osvaldo Cordeiro de Farias continua existindo com menor movimento e quase nenhum comércio. Se no primeiro trecho, entre as praças Montese e Quinze de Novembro, o comércio já era de apelo regional, nesta outra parte ele fica ainda mais caseiro. As pessoas que circulam parecem conhecer umas às outras — do nada interrompem a caminhada para cumprimentar alguém que esteja passando. E a conversa rende...

No segundo trecho da Avenida General Cordeiro de Farias, entre a Praça Quinze de Novembro e o Teatro Armando Gonzaga, o comércio diminui e as antigas casas do Instituto da Previdência ficam mais notórias.

Uma das poucas casas
bem conservadas. Linda!
As casas antigas agora ficam mais aos olhos de quem quer analisá-las melhor pois não são usadas como lojas. Diria que 95% delas carece de cuidados e recuperação, o que não quer dizer que não sejam encantadoras. Sempre digo que é preciso ver esses imóveis com um olhar meio de raio laser. É dessa forma que conseguiremos perceber o quão importantes e interessantes eles são para a nossa história. Na esquina da Rua Brigadeiro Delamare, por exemplo, é possível ver a lateral destas casas, que contam com uma ou duas janelas e um gigante paredão adornado por grafiteiros. Já ia me esquecendo: uma das casas ainda mantém na fachada uma modesta placa que indicava "Instituto da Previdência".


 O mais interessante neste trecho é poder ver a lateral das casas nas esquinas. Na primeira foto, à esquerda, pode-se ver um enorme grafite de São Jorge e a massa de cimento cobrindo alguma modificação feita na fachada. Já na foto ao lado, os donos do imóvel reduziram as altas e padronizadas janelas retangulares pela metade da sua altura.

O Teatro Armando Gonzaga
No fim da avenida, uma das maiores joias do bairro: o Teatro Armando Gonzaga. Em estilo modernista, foi projetado e construído em 1950 pelo francês Affonso Eduardo Reidy, com paisagismo de Burle Marx. Foi tombado em 1989 e é citado em várias enciclopédias da Europa e dos Estados Unidos, sendo modelo de estudo para alunos de Arquitetura de diversas faculdades do Brasil e do exterior. Infelizmente os melhores espetáculos da cidade não saem do circuito Centro-Zona Sul, tornando o Teatro Armando Gonzaga pouco conhecido entre os cariocas. No entorno dele estão diversos pontos finais de ônibus, o Hospital Estadual Carlos Chagas e a simpática Paróquia Nossa Senhora das Graças, já na Rua Capitão Rubens.

 No último trecho da principal avenida de Marechal Hermes, o conceituado Teatro Armando Gonzaga e o Hospital Estadual Carlos Chagas.

Já na Rua Capitão Rubens, a Paróquia Nossa Senhora das Graças, bem em frente ao teatro.

Sinceramente? Fiquei realmente admirado em conhecer mais de perto Marechal Hermes. Eu não vou negar que é um bairro que precisa de recuperação, mais dos seus imóveis do que das próprias ruas e praças, que estão bem conservadas. Marechal Hermes é um bairro rico em história e deveria ser tombado. E foi exatamente nesse ponto que eu comecei a formular minhas ideias: como enaltecer novamente essas áreas da cidade? Aqui no Rio, infelizmente, não existe muito essa coisa da revitalização de lugares de acordo com a sua importância histórica, mas sim de acordo com a sua localização — em geral, precisa estar no circuito turístico ou próximo — e no retorno financeiro que seria proporcionado, ou seja, a valorização do terreno e a atração empresarial. Acredito que esse seja um grande desafio para o Rio de Janeiro nas próximas décadas: aprender a parar de maltratar a nossa história. Espero que tenham gostado!

8 comentários:

Rafael Luz disse...

Muito bom, cara! Moro em Marechal Hermes e agradeço por você não ter falado do outro lado do bairro, que não possui atrativo algum. :P

Janete disse...

Pedro,voltei no tempo!!!!!
a escola onde concluí o antigo curso primário e a igreja onde fiz a Primeira Comunhão.
Este bairro tinha um encanto muito especial.Uma pena o abandono.
Adorei!!!!!!
Vamos voltar lá juntos?
Bjs

As Ruas do Rio disse...

Rafael,
eu até queria ir do outro lado, mas eu fiquei tão fissurado pelo projeto urbanístico do lado fotografado que eu acabei desprezando esse tal lado que você não diz ter atrativo algum, hehe. Eu gostei muito de Marechal Hermes, nunca tinha ido assim sozinho e a pé. Pretendo voltar para desbravar as ruas de dentro. Um abraço!

Tia,
vamos sim... apesar dos pesares, eu fiquei apaixonado pelo projeto do bairro. Quero entrar nas transversais e quem sabe ir até o Ipase, haha. Um beijo!

Rafael Luz disse...

Eu sou fotógrafo e tirei duas fotos da rua onde moro, perto da paróquia (Rua Gravatá). Chamei as duas de: "A Alameda de um Marechal esquecido. (I e II)" Dá uma olhada:
http://me.lt/7O7XZ
http://me.lt/7O7sk


Cada dia mais estou gostando do blog. Parabéns.

Anônimo disse...

"Don" Pedro
Como de costume, um ótimo trabalho e bela "postagem". Desta vez, para mim, com um forte apelo "flashback", pois passei grande parte da minha vida de criança/adolescente/adulto em Marechal Hermes, onde fiz o Curso Primário (Escola Santos Dumont) e o Ginasial (ginasial ???) no José Aciolly.
Lá viveu também um certo Paulo Cesar Bastos. Não sei se você o conhece ...
Parabéns e obrigado por permitir que eu voltasse um pouco no (bom)tempo.

Anônimo disse...

Quantos metros tem a praça XV de novembro em Marechal Hermes?

Gerson Oliveira disse...

Prezado Pedro, chamo-me Gerson Oliveira e nasci em Marechal (conjunto IPASE). Hoje, por força das circunstâncias moro em Minas e há 15 anos não vejo o meu bairro querido. Adorei suas postagens e comentários; mas ainda tinha mais coisas no interior do bairro como a maternidade Alexander Flemming (na praça estoril), quartéis da aeronáutica (DCE), o colégio técnico Mauá, o campo de futebol do Botafogo, um parque de diversões do outro da linha férrea, etc. Em Marechal você encontrará muitos descendentes de imigrantes portugueses (como minha família) que eram proletários na época da formação do bairro (não sei se tem haver com a história do bairro). Grande abraço!!

Mielly Daudt disse...

Muito legal essa lembrança de nosso bairro. Precisamos de pessoas como você que falam a realidade do abandono dos bairros nos quais não trazem retorno financeiro, mas agora teremos as Olimpíadas e como eles farão??? Precisam passar uma "ideia" diferente da que vivemos na realidade. Mas muito obrigado pelas palavras e Marechal te agradece.