2.5.11

O centenário da Praça Saens Peña

 A Praça Saens Peña, na Tijuca, comemorou aniversário no último sábado (30/04) com uma bela exposição ao ar livre de fotos antigas do local

Uma das praças mais famosas da cidade do Rio comemorou seu centenário no último sábado, dia 30 de abril: a Praça Saens Peña. Em geral, a comemoração de aniversário de determinados logradouros nunca geram tanta repercussão fora dos bairros onde estão. Desta vez, com a praça tijucana, o negócio foi diferente - ganhou até caderno especial de 70 páginas do Jornal O Globo, com fotos antigas, análise arquitetônica, entrevista com antigos moradores, entre outras matérias compactas, embora não menos interessantes. 

Painel junto ao lago
Pode-se dizer que a Praça Saens Peña é um dos lugares da cidade que mais sofreu decadência em função do crescimento da insegurança urbana nas últimas décadas do último século. De lugar elegante, com as melhores e mais bem refrigeradas salas de cinema do Rio, a praça hoje virou mais um local de passagem do que de passeio. Os cinemas - entre eles, o Olinda, Metro-Tijuca, Carioca e América - transformaram-se em grandes lojas de departamentos, ou até mesmo em lojas daquelas mais populares. Restaurantes quase não se vêem mais, tornando o comércio bastante repetitivo: farmácias de um lado, óticas do outro. Por um lado, isso atrai a turma da terceira idade à Saens Peña, aos montes por lá, os principais consumidores deste trecho da Tijuca; por outro, sem opções de lazer noturno, a praça vira mais um lugar para camelôs, mendigos e baixa circulação de pedestres.

 Os pedestres param para admirar a antiga imagem dos antigos cinemas da praça. Na primeira foto, moça fotografa o interior do art-déco Cinema Carioca - hoje uma igreja; ao lado, o refrigeradíssimo Metro-Tijuca, prédio ocupado pela C&A atualmente.

Existe um movimento formado pela Associação Comercial e Industrial (ACIT) do bairro de promover a revitalização da Praça Saens Peña. Inclusive, cheguei a ter contato direto com os participantes do projeto, embora, por agora, eu esteja desatualizado em relação a como têm avançado o alcance dos objetivos. E acho também que foi graças à essa sinergia de resgate da memória da Tijuca como bairro tradicional do Rio, importante do ponto de vista cultural, que foi possível obter essa singela repercussão do centenário da Praça Saens Peña. 

 Pai e filha observam os peixes do tradicional lago da Saens Peña, enquanto a radialista Jussara Carioca apresentava seu programa ao vivo da praça para a Rádio Globo, ao fundo.

A construção do metrô
parece ter sido um caos, na
época. (Imagem reproduzida)
Quem teve a oportunidade de passar por lá, no sábado, deleitou-se com diversos painéis espalhados ao redor do lago da praça com imagens antigas da região. Como grande interessado em registros históricos da cidade do Rio, fiquei surpreendido com a quantidade de imagens raras e ampliadas, nunca antes vistas por mim. A mais curiosa é a que mostra a vista aérea da praça no dia da inauguração do metrô, em 1982. A Conde de Bonfim lotada e a praça, linda, sem grades e revestida por pedras portuguesas. Outro painel mostrava o saguão lotado do belíssimo Cinema Carioca, todo em art-déco, na esquina da Rua das Flores (oficial Major Ávila, no trecho). O cinema foi desativado no ano 2000 e desde então é, infelizmente, ocupado por uma igreja. 

A Rádio Globo parece ter sido uma das patrocinadoras do evento naquele sábado de manhã. A radialista Jussara Carioca, mais conhecida como a Juju, da Rádio Globo, apresentava seu programa diretamente da praça, rodeada de senhorinhas e senhores que ganhavam brindes nas brincadeiras promovidas pelo programa. Uma cena rara foi a quantidade de pessoas fotografando a praça, mais limpa e bem policiada. Senti também que os painéis provocavam um certo ar de nostalgia por quem os admirava. Não era difícil encontrar alguém suspirando pelo fechamento do cinema preferido ou do Café Palheta e da Sorveteria Tijuca.

 Um dos painéis mais interessantes mostra o cartaz promocional do governo Chagas Freitas para a inauguração das três estações tijucanas do metrô, em 1982: Afonso Pena, São Francisco Xavier e Saens Peña. 

 Enquanto a Conde de Bonfim segue com seu ritmo habitualmente frenético, dois senhores, tranquilíssimos, continuavam a divertir-se com as cartas. Ao lado, mais um ângulo do lago da praça.

O trânsito na Conde de Bonfim
O post de hoje pode ter sido um pouco puxa-saco, afinal, tijucano que se preza, como eu, quer sempre ver o bem do bairro em que vive. A questão é que, de fato, a Tijuca guarda muita história, que veio sendo severamente maltratada ao longo dos anos. Prédios e casas belíssimas sofreram a intervenção de gente mal entendida no assunto para puros fins lucrativos; lojas bastante tradicionais, que representavam muito bem o dia-a-dia do tijucano, foram para o beleléu; os cinemas de rua, coitados, não conseguiram competir com o conforto dos shopping centers. Preciso procurar a fonte de onde li isso, mas, na década de 60, um apartamento na Rua Homem de Melo, poderia custar o mesmo que um na Nascimento Silva, em Ipanema, o que mostra o quanto o bairro decaiu em função da violência, entre outros inevitáveis problemas econômicos que assolou a sociedade brasileira.



 Dois outros visuais típicos da Praça Saens Peña - a movimentada Rua General Roca, que hospeda uma das entradas para a estação do metrô. 

 A Tijuca foi tão 'particularmente particular', se me permitem a expressão, que impressiona a quem mora e/ou visita pela sua descaracterização. Acho que um projeto de revitalização da Praça Saens Peña, como o que tem sido promovido pela ACIT, pode ser fundamental para o resgate, não só cultural, mas de identidade de uma região que continua tendo muito potencial e localização estratégica. Os índices imobiliários não me negam. De qualquer forma, espero que a Saens Peña tenha a mesma sorte que a Lapa teve em sua recuperação, assim como a Zona Portuária terá, entre outros exemplos aí pela cidade.


Conde de Bonfim: a rua com cara de avenida que margeia a Praça Saens Peña.

6 comentários:

Flora Maria disse...

Faz 20 anos que saí do Rio, e poucas vezes mais estive na Tijuca, esse bairro tão verde, nobre, chic dos tempos idos. Minha mãe morou pertinho da praça Saens Pena, e, apesar de morar no Grajaú, eu estava sempre por lá, para compras, cinema, passeios.

O tempo passa, o mundo gira, e vai se perdendo partes da história de uma cidade, e de nossas vidas. E mais do que tudo, perdemos o glamour, a elegancia, a classe e o charme. Que pena...

Joel Bueno disse...

O post me levou a uma viagem no tempo... se quiser dar uma olhada, tá no http://blogjoelbueno.blogspot.com/

igor disse...

Torço muito pela revitalização da praça. Como Tijucano e morador dos arredores da praça vejo com muita tristeza a praça se distanciando cada vez mais do que já foi um dia......tomara que o poder público olhe novamente para este local com atenção e que dias melhores venham para nós......o projeto da ACIT é ótimo e tem que sair do papel de qualquer jeito!!!

Felipe Bastos disse...

Fico pensando no rumo que as coisas tomam... A praça na verdade é super jovem, tem só 100 anos! E como ela mudou em 1 século... Fico pensando no que ela está se transformando e o que será dela daqui há mais 100, 200, 500 anos... O que vamos deixar para os que vão vir?

Pedro Paulo Bastos disse...

A tendência é que acabe, se não for valorizada uma política de preservação do patrimônio urbano e histórico. Até então, vivemos uma sucessão de remoção de edifícios emblemáticos, descaracterização de logradouros, utilização de imóveis para fins incoerentes com a proposta original de função... Lamentável, principalmente a passividade da população diante destes fatos.

Anônimo disse...

TIJUCA.