9.3.10

O drama do bairro de Noel

Imortalizada por Noel Rosa (foto ao lado, a estátua do compositor na Praça Maracanã), Vila Isabel é, de longe, um dos bairros mais tradicionais da cidade do Rio de Janeiro. Inundada por referências musicais e culturais cariocas, o bairro surgiu através do então empresário João Batista Viana Drummond, tornando-se Barão no futuro. Drummond dedicou à Princesa Isabel o grandioso lote de terras adquirido, por isso o nome. Com planejamento impecável, ruas em tabuleiro de xadrez, um bulevar com inspirações francesa, praças charmosas e o primeiro jardim zoológico da cidade, Vila Isabel tornou-se um dos bairros cariocas mais aprazíveis e nobres para se morar. Este título permaneceu por muitos anos, até que os problemas contemporâneos em função da descontrolada urbanização começou a afetá-la diretamente - eis a progressiva queda do império.


O PROJETO DO BAIRRO foi elaborado pelo Barão de Drummond, detentor das terras onde hoje se situa Vila Isabel.*


Localizada em uma importante região da Zona Norte do Rio, nos arredores do estádio do Maracanã, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e de parques florestais importantes, como a Reserva do Grajaú e a Floresta da Tijuca, Vila Isabel é, hoje, um bairro de classe média e média-baixa, que procura não afundar-se diante de tantas calamidades e de violência que a atinge. Cheguei a citar no último post que Vila Isabel foi um dos bairros que eu mais frequentei no meu início de adolescência, naqueles momentos em que os pais te permitem sair de casa sozinho. Diria que foi ali também onde surgiu todo esse meu interesse pela geografia e cultura da cidade. Consigo mentalizar muito bem o que era Vila Isabel há dez, doze anos atrás e o que é agora, e confesso: nunca vi nenhum outro lugar decair tanto como este em tão pouco tempo.


O BOULEVARD 28 DE SETEMBRO é o único logradouro do Rio de Janeiro com a designação de bulevar, projeto inspirado nas vias francesas que tanto influenciavam a vida carioca no passado. A avenida conta, ainda, com partituras estampadas nas pedras portuguesas de suas calçadas, em homenagem aos artistas do bairro, como Noel Rosa.


O luxo ficou no passado
Ruas charmosas, arquitetura imponente, árvores centenárias. As ruas de Vila Isabel vem sofrendo, cada vez mais, um processo de deterioração nunca antes visto. Os sobrados remanescentes do início do século XX estão caindo aos pedaços e, quando deveriam ser reaproveitados e restaurados, como preservação da memória cultural carioca, são ocupados por um tipo de comércio (popular) que as descaracteriza. A Rua Teodoro da Silva, importante ligação entre o Grajaú e o Maracanã, recebe diariamente um fluxo crescente de automóveis e ônibus, embora o número de árvores esteja cada vez mais decrescendo. Paisagem gris, contribuída com a ajuda das pichações que imperam a cidade. O Boulevard 28 de Setembro, majestuosa avenida, a única com designação de bulevar no Rio, também sofre com a imundície das calçadas musicais e com a descaracterização dos imóveis clássicos, transformados em comércio dos mais variados tipos. Não há charme que resista a um maltrato deste tipo. A Praça Barão de Drummond também encontra-se em estado nada glamuroso; antigo local de passeio, a praça nada mais é hoje como ponto final para as linhas de ônibus abóboras. O antigo jardim zoológico, chamado de Recanto do Trovador, importante parque da região, encontra-se às moscas e à mercê da violência.


IMPORTANTE VIA de trânsito de Vila Isabel, a Rua Teodoro da Silva (foto à esquerda) sofre com a falta de árvores, com o vandalismo e a falta de conservação dos imóveis. Já a Praça Barão de Drummond (foto à direita, com o Convento de N. Sra. da Conceição da Ajuda ao fundo), outrora aprazível, hoje está decadente e deficiente, afetada principalmente pela violência.


O mercado imobiliário
Por abrigar uma das favelas que mais tem estado na mídia por seu alto grau de instabilidade, o Morro dos Macacos, os imóveis da região sofrem com a desvalorização em função da violência. A Rua Visconde de Santa Isabel, uma das mais afetadas, abriga prédios de classe média e média-alta, mas que sofrem com os tiroteios provenientes do morro. As placas de "Vende-se" são muitas, embora poucos consigam vender seus imóveis. E se conseguem, é por preços aquém do desejado. De acordo com o site da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (ADEMI), um apartamento quarto-sala na Visconde de Santa Isabel está sendo vendido, em média, por R$ 77 mil reais enquanto na Rua Teodoro da Silva, afastada do morro e da linha de tiro, o preço sobe para R$ 160 a R$ 180 mil reais - mais que o dobro, para se ter noção de tal discrepância. Uma das possibilidades para que este quadro se reverta (ou estabilize) seria a ocupação das UPPs - polícia pacificadora - nos morros do bairro.


A RUA LUIZ BARBOSA no encontro com o Boulevard 28 de Setembro e a Praça Barão de Drummond e parte da favela do Morro dos Macacos, ao fundo.


Comércio e serviços
Em 1996, o Shopping Iguatemi chegou a Vila Isabel, no antigo estádio do América Football Club, na esquina das ruas Teodoro da Silva e Barão de São Francisco. Mais conhecido por suas lojas caras e sofisticadas, o Iguatemi foi inaugurado ali como forma de atender a um público que ainda não contava com um centro comercial daquele porte. Até então, o alto poder aquisitivo dos moradores de Vila Isabel, Grajaú, Tijuca e Maracanã foi bastante apreciado pelo Iguatemi até que, em decorrência dos problemas já relatados, a procura por lojas elegantes foi deixada de lado. Quem pôde sair de Vila Isabel, começou a sair, e o shopping passou a se adequar ao novo público-alvo: as classes média e média-baixa. Supermercados como o Pão de Açúcar e joalherias como a H. Stern se retiraram e deram lugar às lojas populares como as Casas Bahia, Ricardo Eletro, Renner, entre outras.

Atualmente
O que resta hoje à Vila Isabel e à sua famosidade é o Carnaval. A GRES Unidos de Vila Isabel (à direita) tem se destacado no Grupo Especial da escolas de samba do carnaval, após um longo período no Grupo de Acesso. Ter sido o berço de diversos compositores e poetas, ou o lugar onde eles se revelaram, ainda mantém a imagem de Vila Isabel como um bairro boêmio e musical. Os botecos, marca registrada do bairro, continuam salpicando de esquina em esquina, porém, como nada na vida é somente festa, a Vila merece um tratamento mais adequado. Tratamento não só para coibir a desordem urbana, mas também para valorizá-la diante de sua grandiosa importância para a cultura do Rio. Tratamento para reembelezá-la e reelevar a auto-estima de seus moradores, que tanto a amam. Tratamento para que a população marginalizada possa viver em paz, com decência, sem ataques violentos nem tiros. Tratamento para que todos vivam em harmonia, favela e asfalto, ruas e limpeza, lixo e lixeira. Vila Isabel é um patrimônio, salvá-la é nosso dever!

*Fonte:
ABREU, Maurício de A. A evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPP, 2008, p. 46.

7 comentários:

Luciana disse...

li com muita atenção!
belo trabalho, pp.
bjo

Gustavo disse...

há 10, 15 anos atrás a Tijuca estava no fundo do poço e a Vila tava bem melhor (eu lembro que as festinhas, boates, pizzarias e outras coisas da minha pré-adolescência eram todas lá)
Hoje o quadro está invertido...

Vila Isabel é um bairro muito bonito, mas que se degradou muito...

acho que além dos principais problemas, um simples aumento na arborização já melhora a região, tornando o bairro mais agradável e bonito

Beatriz Fontes disse...

Não sei se acredito nas tais UPPs como solução, embora estas pareçam, a curto prazo, ser a esperança de todos. De minha parte, continuo acreditando que mudanças, mesmo, só virão quando se tratar de uma série de outras questões (como educação, saúde, emprego etc.), mas isso já virou chavão... ;-)

De qualquer forma, parabenizo-o por lembrar de Vila Isabel neste seu blog. Este, para mim, também é um bairro de boas recordações, até porque foi o primeiro lugar em que morei. Somente aos 3 anos fui contaminada pelo vírus tijucano...

Além disso, cresci ouvindo as histórias da região, na casa dos meus avós. Meu avô tinha muito orgulho do seu bairro, e minha avó, que ainda vive por lá, hoje degradada Barão de Cotegipe, se assusta com a violência cada dia mais próxima do seu portão.

Sinto falta das festas juninas de rua (fartas naquele bairro), do padeiro que vinha trazer o cesto com pães quentinhos (e chocolates variados), do pipoqueiro Américo e dos muros baixos da casa de minha avó, tão mais bonitos e simpáticos, mas que deixavam a casa excessivamente "à mostra".

Samila Soares disse...

Parabéns Pedro, mais uma vez vc fez um lindo trabalho. sds.

Elisa Russo disse...

Olha, Pedro, sou uma dessas leitoras de blogs que le todos os posts, mas raramente comenta... Porém esse teu texto merece, no minimo, um comentario para parabenizar. Excelente texto sobre a minha Vila.

Parabéns.

Cris disse...

Pena essa caída do subúrbio do Rio (do Rio todo, na verdade...), com tanta coisa interessante, mas tb com tanta violência. Esses bairros eram muitos gostosos! bjao

Pedro Paulo Bastos disse...

Cris,
sou chato com nomenclaturas! hahaha
Vila Isabel fica na Zona Norte, não no Subúrbio, embora ambos estejam muito decadentes.