

Os cariocas têm uma grande afeição às linhas de ônibus. Isto é, refiro-me àqueles que usam tal meio de transporte, pois nem todos o utilizam. Mesmo assim, independente da condição social ou do lugar onde mora, todos pegam ou alguma vez subiram em algum coletivo. Ainda assim, mesmo quem nunca tenha pego – o que eu acho difícil! -, conhecê-los de vista, pela cor, pelo número, todo mundo conhece, o que comprova que os ônibus são figuras bastante marcadas na cidade. Uma relação de amor platônico, que deriva em nomeações criativas como “quatro doidão” (referência à linha 422, na foto acima), “laranjinha”, “amarelinho” ou, então, em divergências na leitura dos números: o 247 pode ser chamado de “dois-quatro-sete”, enquanto outros chamarão de “duzentos e quarenta e sete”. O cara que faz uso da primeira nomenclatura fará cara feia ao ouvir o soar da segunda e vice-versa. Os ônibus são figuras carioquíssimas - repito -, é parte do nosso cotidiano, mesmo que não percebamos.
No entanto, os ônibus do Rio encontram-se em uma linha tênue entre o amor e o ódio. A dificuldade de locomoção em uma cidade cercada de morros, com vias bastante deficientes acoplada aos interesses da esfera privada, faz com que o carioca sofra com os itinerários pouco eficazes. Itinerários repetitivos, que sobrecarregam as ruas e avenidas. Sem falar no monopólio das empresas que dominam determinadas áreas do Rio, prestando serviços aquém do exigido, tarifas exorbitantes e – uma vez mais – com itinerários ultra semelhantes.
Enumerei alguns exemplos em diferentes regiões da cidade. Acompanhe.
CENTRO
A área mais bem servida de linhas de ônibus. Motivos são óbvios: é o Centro da cidade. Dali se encontram linhas para todos os lugares do Rio, embora o excesso no número de veículos sobrecarregue de forma decisiva todas as ruas desta região, cujas quais a maioria não conta com largura adequada para o recebimento de um grande fluxo de veículos. Logo, os dois grandes eixos viários do Centro (as avenidas Presidente Vargas e Rio Branco) viram um mar de ônibus nos quais, muitas das vezes, estão vazios. Quantidade de linhas, no Rio, é um sinônimo de qualidade, de serviço bem prestado, o que em realidade isso não consta nem um pouco. Redução no número de linhas com aumento de planejamento nos itinerários amenizaria o problema do trânsito no Centro – junto da expansão do metrô, o que é assunto para outro post.

A CENTRAL DO Brasil, na Avenida Presidente Vargas: um número alto de coletivos circula por esta via, que é uma das mais largas da cidade do Rio, com quatro pistas. Mesmo assim, o trânsito é caótico.
ZONA SUL
A área turística da cidade, a Zona Sul, conta com os melhores serviços de transporte da cidade, além do Centro, com ônibus modernos, limpos e menos poluentes, em alguns casos. Entretanto, o que a Zona Sul ganha em conforto, ela ganha em trânsito caótico e em excesso de linhas. Nesta região, encontram-se três grupos de itinerários circulantes: Zona Sul-Zona Sul (linhas que circulam entre os bairros da Zona Sul, administrada em maior parte pela empresa São Silvestre), Zona Sul-Centro (linhas que ligam os bairros desta zona ao Centro da cidade, na qual a Real Auto Ônibus tem o poder quase supremo sobre este trajeto) e Zona Sul-Zona Norte (linhas que ligam os bairros do Sul aos da Zona Norte, mais especificamente à região da Tijuca e de Vila Isabel e algumas poucas linhas que conectam ao subúrbio). A ligação entre as zonas Sul e Oeste é ainda precária, com exceção dos bairros da Barra e do Recreio.

A FALTA DE planejamentos nos itinerários, de forma a torná-los mais eficazes, ficam em segundo plano, contribuindo para o excesso de frota nas ruas e, na maior parte das vezes, sem passageiros, pois os itinerários são muito mal distribuídos. Na foto acima, a Avenida das Nações Unidas, em Botafogo, após uma batida de ônibus, em janeiro de 2010.
Espremida entre o mar e a montanha, a Zona Sul não conta com avenidas largas o suficiente para receber a quantidade de veículos que recebe. Os itinerários fazem o mesmo percurso praticamente, afinal, os acessos para sair da Zona Sul são poucos. Uma mesma linha que ligue o bairro do Leblon ao da Glória pode ser o mesmo que ligue o Leblon ao Centro, ou então, até mesmo, um que conecte o mesmo bairro à Zona Norte. Ainda no mesmo raciocínio, uma mesma linha de ônibus que ligue, por exemplo, Copacabana à Central do Brasil, pode ser feita por outras diversas linhas que ligam Copacabana à Zona Norte, via Avenida Presidente Vargas.
TIJUCA e ALTO DA BOA VISTA
Outra região bastante próxima do Centro que é muito bem servida de ônibus. Ainda que a malha de ruas/avenidas desta localidade seja mais expandida que a da Zona Sul, o trânsito caótico também impera nas principais vias de trânsito, como a Praça Saens Peña, ponto de partida de diversos coletivos para diferentes regiões da cidade. Uma das críticas ao sistema de ônibus da Tijuca é a semelhança entre os itinerários que conectam esta região à Zona Sul. Uma linha que conecte a Tijuca ao Leblon, por exemplo, percorre todo o Centro da cidade, Aterro do Flamengo, Copacabana e Ipanema. Uma linha que ligue a Tijuca à Gávea, percorre a Lapa, toda a Praia do Flamengo, Botafogo, Humaitá, Jardim Botânico e... ufa!, a Gávea. O Túnel Rebouças, principal eixo viário entre as zonas Sul e Norte, encontra-se em um bairro vizinho à Tijuca, podendo interligar tais trajetos em questão de minutos. Entretanto, não existe nenhuma linha regular que percorra toda a Rua Conde de Bonfim em direção à Zona Sul via Rebouças, que é logo ao lado.

A AUTO VIAÇÃO TIJUCA, mais conhecida como Tijuquinha, monopoliza as linhas de ônibus que circulam pelas estradas do Alto da Boa Vista, com serviços nem sempre satisfatórios. A frequência irregular das linhas deixa muitos moradores da Tijuca e do Alto na mão, pois são as únicas que conectam a região à Barra da Tijuca.
Em seguida, o problema dos ônibus no Grande Méier, Barra e Recreio, Jacarepaguá, Ilha do Governador, Subúrbio e Zona Oeste.
Fontes das fotos, por ordem de aparição:
1 - Disponível em Busologia do Rio. Acesso em 31/03/10, às 14h40.
2- Disponível em Extra. Acesso em 31/03/10, às 14h28.
3 - Disponível em O Dia. Acesso em 31/03/10, às 14h19.
4 - Disponível em Revista do Ônibus. Acesso em 31/03/10, às 14h50.