15.11.09

Méier: um dos novos eldorados cariocas

Que o bairro do Méier sempre foi muito respeitado na área suburbana da cidade do Rio, não existem dúvidas. Considerado nos áureos tempos como a capital do subúrbio, pelo seu forte comércio e apelo tradicional, o Méier, nos dias de hoje, já não faz muito jus a este título. O comércio de alta qualidade da Rua Dias da Cruz, a principal via do bairro, migra gradativamente para os shoppings centers, desconfigurando o símbolo de compras que o bairro remetia. Entretanto, outrora respeitado por tais motivos, hoje o Méier é sinônimo de investimentos maciços no ramo imobiliário; são dezenas de novos prédios (ao lado) e condomínios lançados por ano, nos moldes dos da Barra da Tijuca, criando uma ilha de consumo na Zona Norte nunca antes vista. A paisagem mudou e muita gente tem ido morar lá também.


REPRESENTAÇÃO CARTOGRÁFICA do local fotografado, a Rua Barão de São Borja, pintado de verde.


Um dos diversos exemplos deste panorama econômico e urbano é a Rua Barão de São Borja, no próprio bairro. Com localização considerada nobre, por estar situada em um dos melhores pontos do bairro e de rápido acesso à Linha Amarela, via Rua Dias da Cruz, a Barão de São Borja vem perdendo – aliás, acho que já perdeu – sua identidade calma, rural, típica dos bairros suburbanos da Zona Norte, adquirindo um outro aspecto, com elementos em atrito.


OS DOIS LADOS da esquina da Rua Barão de São Borja com a Rua Dias da Cruz: a Churrascaria Cometa e outras pequenas lojas, em destaque.



MAIS DO início da Barão de São Borja, nos arredores da Rua Dias da Cruz.


A via é pequena. Tem seu início na Rua Dias da Cruz e termina lá em cima, na Rua dos Carijós. Nenhuma outra rua a corta; ela é reta, contínua e razoavelmente comercial. Na extremidade com a Dias da Cruz, um dos imóveis é ocupado pela Churrascaria Cometa do Sul (antiga filial da Pizzaria Domino’s); no outro, lojinhas de porta, muitas delas antigas, como uma de confecções de biquinis, em meio a canteiros com palmeiras e grama necessitando um aparo. Os prédios da esquina são bem antigos, onde a portaria é apenas uma portinha e o resto do térreo ocupado por comércio. Mas esse tipo de edifícios muda ao longo da rua. Ah, se muda!


POR SEQÜÊNCIA: 1. A via conta com guaritas particulares em todo o seu percurso - no total, são dois, contando com esta cabine | 2. Exemplo de casas simples, de apenas um pavimento - muitas delas estão sendo demolidas. | 3. Panorama da rua, a partir do lado ímpar da calçada. Destaque aos prédios adiante.


Não é preciso adentrar muito a Barão de São Borja para saber de que se trata de uma rua simpática. Isso fica muito, também, a cargo das árvores e canteiros que ocupam as calçadas. Digo e repito: mais do que qualquer edifício sofisticados, calçada bem cuidada ou rua perfeitamente asfaltada, as árvores e os jardins são os mais imprescíndiveis elementos de luxo das nossas ruas. Simples ou mais bem ornamentados, não importa!, a natureza merece seu espaço, pois harmoniza e muito o ambiente. Ainda mais tratando-se da Rua Barão de São Borja...


O CONVÍVIO DE casas e edifícios em uma rua onde o predomínio das primeiras era majoritário até meados da década de 1990.


Adoro progressos - principalmente tratando-se dos urbanos -, mas em alguns lugares o processo pode chocar. Um choque natural, apenas curioso, das disparidades. Sabe aquelas casinhas simpáticas, amplas, muito bem caracterizadas no post do dia 30/10, sobre o bairro do Engenho de Dentro, que fica ali do lado? Pois bem; a Barão de São Borja também era exatamente assim, e perde cada vez mais espaço para os lançamentos imobiliários, edifícios altooooos, que distoam do aspecto das casas pequenas ao longo da rua. Muitas delas foram demolidas, algumas ainda resistem. E dá um dó... Ao lado, há um exemplo. Abaixo, outro, só que mais impactante, veja!


A CASA DO número 34 da Rua Barão de São Borja, pequena e adorável, vive hoje espremida ao lado de um prédio recém-construído. A perda da privacidade e dos espaços livres é uma das características deste processo de transformação da Zona Norte suburbana.


O SINÔNIMO DE tranqüilidade da rua pode ser conferido pelo redutor de velocidade, os quebra-molas.


MAIS CASAS, sendo uma delas onde funciona o curso de inglês IBEU, e ao lado, mais um dos recentes edifícios da região.


Algumas das casas são apenas de um pavimento, e essas são as mais simples. A média geral, mesmo, fica por conta dos imóveis de até dois pavimentos, umas com aspecto mais decadente, outras nem tanto, mas que ressaltam muito bem a riqueza da arquitetura – principalmente os detalhes. Isso vale desde à moldura das janelas até ao desenho e à forma das grades dos portões e muros. Quanto aos prédios, não preciso nem comentar, pois o modelo deles é, basicamente, o mesmo: altos e com varandões. Uns “monstros”, em meio ao clima pastoral oferecido por algumas casas.


AS CASAS, já nos arredores da Rua dos Carijós: final do percurso.



ALUGA-SE: casa bonitinha, não?


Na verdade, o que se vê na Rua Barão de São Borja é uma diversidade de estilos, bem misturados. Foco-me muito na relação dos edifícios com as casas, embora exista também uma relação entre elas. As mais simples são de períodos anteriores àquelas com toques mais modernistas. Algumas outras já não possuem uma identidade de estilo tão perceptível, visto que intervenções não muito bem planejadas foram realizadas e a descaracterização se obteve.

No entanto, é inegável contestar a contextualização exposta no início deste post: os edifícios, mesmo que em minoria (ainda!), chamam a atenção por quem ali transita, e indicam, sem dúvidas, o futuro do espaço urbano da área. Esta é a tendência, e tais verticalizações pomposas têm tudo para dar certo; afinal, ali é um prato cheio para a classe média: ruas simpáticas, tranqüilas, com ares bucólicos. No Méier tem isso... só que até quando? Esta é a hora mais propícia da Zona Norte receber o planejamento que não recebeu no período de urbanização da cidade. Se o futuro do Rio é a expansão ao norte, que sejam valorizados tais procedimentos por ali. Que se reescreva a história de uma região que cresceu desordenadamente e, agora, pode ter a chance de se auto-regenerar com a merecida atenção e limites, controlados diretamente pelos órgãos superiores. E vivamos felizes para sempre!


AS FOTOS ACIMA registram as imediações da Barão de São Borja com a Rua dos Carijós, outra rua simpática e com cada vez mais novos lançamentos imobiliários; ponto nobre da região do Méier.


Gostou do post? Conhece a rua? Deixe o seu comentário!

11 comentários:

Jaime Fernando de Souza disse...

Oi Pedro, mais uma boa matéria sobre as ruas do Rio de Janeiro, bairro tradicional, e muio bem mostrado.
Parabéns,
abraços, Jaime Fernando

Samila Soares disse...

É Pedro, pena que chegar ou sair do Méier tem sido uma aventura, mas o bairro tem muita coisa legal mesmo.Sds.
http://grupograndetijuca.blogspot.com/

Cris disse...

Fico pensando na Rio na época do mu pai, que jogou bola qd a praia do flamengo ainda não era "aterro". Nada contra o aterro, aliás, muito bonito... Mas a cidade era outra, Tijuca e Merier devim ser uma delícia... Uma pena tanta sujeira e tanta violência. bjs

Rio na Veia disse...

Caro Pedro,

Parabéns pelo seu blog. Excelente conteúdo! Convidamos você a conhecer o nosso site, também sobre o Rio de Janeiro. É o Rio na Veia (www.rionaveia.com.br)´, entretenimento e cultura sobre o Rio de Janeiro e os cariocas. Gostaríamos de mencionar o seu trabalho em nosso site, quem sabe até com uma entrevista sua. Se for de seu interesse, entre em contato conosco pelo rionaveia@gmail.com.
Será um prazer trocar umas ideias sobre o Rio com você.

Grande abraço,
Equipe do Rio na Veia

Patricia disse...

Amei suas fotos.
Sou da geografia também da turma do Renato.
fiquei feliz de ver o suburbio tão belamente fotografado.

Beijos

Pedro Paulo Bastos disse...

Patrícia, que barato te ver por aqui. Que bom que gostou!
Um beijão!

Trânsito Méier disse...

O grande problema do crescimento imobiliário do Méier é o impacto negativo que isso causa no já caótivo trânsito do bairro. O poder público tem que estar atento a esse movimento e tomar providências a respeito.

Pedro Paulo Bastos disse...

Eu considero o Méier como um dos bairros de maior potencial de crescimento e desenvolvimento aqui na cidade do Rio.
Digo isso porque os moradores do Méier tem um padrão de vida bem alto em relação ao subúrbio como todo. Como o vetor de crescimento carioca é em direção ao Oeste (Barra, Subúrbios e Zona Oeste), o Méier encontra-se em um local-chave. Mesmo assim, a questão da localização favorecida é de longo prazo; neste momento, continuamos com uma hipervalorização do Centro expandido (Centro, Zona Sul e Tijuca - e claro, da Barra), o que trava o desenvolvimento do Méier, no caso.
Um outro motivo também bastante infeliz, como você mesmo citou, é o trânsito caótico, não só do Méier, mas de como toda a área que circunda a ferrovia. Ruas estreitas e mal projetadas impedem a circulação contínua de veículos, contribuindo para esse verdadeiro mafuá que é o trânsito de ruas como a 24 de Maio e Dias da Cruz.

Janaina disse...

Bom, Pedro, vou descordar de você. As ruas do subúrbio não foram mau projetadas. Elas apenas foram abertas numa época que não se podia prever tamanho crescimento populacional. Os bairros como Méier contam com ônibus para vários lugares, além do trem. O que é preciso é melhorar e estimular o uso do transporte público. O mercado imobiliário adensa a região e depois a prefeitura força a barra para construir viadutos (na zona sul, é subterrâneo, mas no subúrbio o custo não compensa, entende?). Se você fotografar o impacto da Linha Amarela na paisagem do Engenho de Dentro, vai me entender. No subúrbio o custo da obra tem que se o menor possível; o que antes merecia ser preservado, depois pode ser demolido...) Veja a foto do Jardim do Méier, antes do viaduto Castro Alves. A paisagem era bem mais bonita...

Pedro Paulo Bastos disse...

Oi, Janaina.

De alguma forma as ruas foram projetadas para que existissem. Quando digo que o subúrbio cresceu desordenadamente, foi no sentido de que não houve uma preocupação futurista por parte da administração pública em relação às suas ruas e avenidas. Vejamos o caso da Presidente Vargas, inaugurada na década de 40, com muitas pistas, numa época onde a cidade quase não tinha automóvel. Mesmo assim, já se pensava na visão de futuro, cidade moderna.

Na Zona Sul as ruas também são estreitas, inclusive os corredores principais, como a Nossa Senhora de Copacabana. Mesmo assim, alterações foram feitas ao longo dos anos justamente por ser uma área que é formadora de opinião, coisa que não aconteceu no subúrbio, pelos motivos que já conhecemos. A estrutura das ruas que beiram os trilhos é vergonhosa - é a mesma desde a inauguração, praticamente. Mesmo engarrafada, ninguém faz nada.

O que eu acho que está tendo (ou terá) um impacto gigante na paisagem - e até na existência do próprio - é o bairro da Abolição. Li recentemente que vão construir um novo viaduto na Rua da Abolição, demolindo diversos imóveis no local. Pretendo falar sobre isso em outra postagem.

Um abraço!

Anônimo disse...

O Méier é um ótimo bairro, o melhor do subúrbio ou "bairro da central", como chamam os bairros cortados pela linha que vem da C. do Brasil. Pena que, não exista um planejamento urbanístico ordenado p/ bairro (p/ cidade em geral), não exista plano diretor. O que vemos são os bairros crescendo desordenadamente, a prefeitura entregando criminosamente a cidade à especulação imobiliária e para piorar, fazendo obras que enfeiam a cidade e que no fim das contas não vão resolver nada, como esse brt e o mergulhão de campinho. Faça um texto sobre isso, por favor. Grande abraço!