
ESSE É o Largo do Curvelo com a Rua Almirante Alexandrino, no bairro de Santa Teresa. Ali é a primeira parada dos bondes que partem do Largo da Carioca em direção ao bairro. Passeio ótimo para um dia de sol!
Que o bairro do Méier sempre foi muito respeitado na área suburbana da cidade do Rio, não existem dúvidas. Considerado nos áureos tempos como a capital do subúrbio, pelo seu forte comércio e apelo tradicional, o Méier, nos dias de hoje, já não faz muito jus a este título. O comércio de alta qualidade da Rua Dias da Cruz, a principal via do bairro, migra gradativamente para os shoppings centers, desconfigurando o símbolo de compras que o bairro remetia. Entretanto, outrora respeitado por tais motivos, hoje o Méier é sinônimo de investimentos maciços no ramo imobiliário; são dezenas de novos prédios (ao lado) e condomínios lançados por ano, nos moldes dos da Barra da Tijuca, criando uma ilha de consumo na Zona Norte nunca antes vista. A paisagem mudou e muita gente tem ido morar lá também.
Um dos diversos exemplos deste panorama econômico e urbano é a Rua Barão de São Borja, no próprio bairro. Com localização considerada nobre, por estar situada em um dos melhores pontos do bairro e de rápido acesso à Linha Amarela, via Rua Dias da Cruz, a Barão de São Borja vem perdendo – aliás, acho que já perdeu – sua identidade calma, rural, típica dos bairros suburbanos da Zona Norte, adquirindo um outro aspecto, com elementos em atrito.
A via é pequena. Tem seu início na Rua Dias da Cruz e termina lá em cima, na Rua dos Carijós. Nenhuma outra rua a corta; ela é reta, contínua e razoavelmente comercial. Na extremidade com a Dias da Cruz, um dos imóveis é ocupado pela Churrascaria Cometa do Sul (antiga filial da Pizzaria Domino’s); no outro, lojinhas de porta, muitas delas antigas, como uma de confecções de biquinis, em meio a canteiros com palmeiras e grama necessitando um aparo. Os prédios da esquina são bem antigos, onde a portaria é apenas uma portinha e o resto do térreo ocupado por comércio. Mas esse tipo de edifícios muda ao longo da rua. Ah, se muda!
Não é preciso adentrar muito a Barão de São Borja para saber de que se trata de uma rua simpática. Isso fica muito, também, a cargo das árvores e canteiros que ocupam as calçadas. Digo e repito: mais do que qualquer edifício sofisticados, calçada bem cuidada ou rua perfeitamente asfaltada, as árvores e os jardins são os mais imprescíndiveis elementos de luxo das nossas ruas. Simples ou mais bem ornamentados, não importa!, a natureza merece seu espaço, pois harmoniza e muito o ambiente. Ainda mais tratando-se da Rua Barão de São Borja...
Adoro progressos - principalmente tratando-se dos urbanos -, mas em alguns lugares o processo pode chocar. Um choque natural, apenas curioso, das disparidades. Sabe aquelas casinhas simpáticas, amplas, muito bem caracterizadas no post do dia 30/10, sobre o bairro do Engenho de Dentro, que fica ali do lado? Pois bem; a Barão de São Borja também era exatamente assim, e perde cada vez mais espaço para os lançamentos imobiliários, edifícios altooooos, que distoam do aspecto das casas pequenas ao longo da rua. Muitas delas foram demolidas, algumas ainda resistem. E dá um dó... Ao lado, há um exemplo. Abaixo, outro, só que mais impactante, veja!
Algumas das casas são apenas de um pavimento, e essas são as mais simples. A média geral, mesmo, fica por conta dos imóveis de até dois pavimentos, umas com aspecto mais decadente, outras nem tanto, mas que ressaltam muito bem a riqueza da arquitetura – principalmente os detalhes. Isso vale desde à moldura das janelas até ao desenho e à forma das grades dos portões e muros. Quanto aos prédios, não preciso nem comentar, pois o modelo deles é, basicamente, o mesmo: altos e com varandões. Uns “monstros”, em meio ao clima pastoral oferecido por algumas casas.
Na verdade, o que se vê na Rua Barão de São Borja é uma diversidade de estilos, bem misturados. Foco-me muito na relação dos edifícios com as casas, embora exista também uma relação entre elas. As mais simples são de períodos anteriores àquelas com toques mais modernistas. Algumas outras já não possuem uma identidade de estilo tão perceptível, visto que intervenções não muito bem planejadas foram realizadas e a descaracterização se obteve.
No entanto, é inegável contestar a contextualização exposta no início deste post: os edifícios, mesmo que em minoria (ainda!), chamam a atenção por quem ali transita, e indicam, sem dúvidas, o futuro do espaço urbano da área. Esta é a tendência, e tais verticalizações pomposas têm tudo para dar certo; afinal, ali é um prato cheio para a classe média: ruas simpáticas, tranqüilas, com ares bucólicos. No Méier tem isso... só que até quando? Esta é a hora mais propícia da Zona Norte receber o planejamento que não recebeu no período de urbanização da cidade. Se o futuro do Rio é a expansão ao norte, que sejam valorizados tais procedimentos por ali. Que se reescreva a história de uma região que cresceu desordenadamente e, agora, pode ter a chance de se auto-regenerar com a merecida atenção e limites, controlados diretamente pelos órgãos superiores. E vivamos felizes para sempre!
James A. Fitzpatrick foi um documentarista e diretor americano que, nas primeiras décadas do século passado, percorreu diversas cidades filmando-as para a sua série de documentários nomeada de Fitzpatrick Traveltalks e The Voice of the Globe. Uma dessas cidades, é claro, foi a então capital federal do Brasil, o Rio de Janeiro, cujo filme foi lançado em 1936 - City of Splendour - sob o selo da MGM. O Rio filmado por Fitzpatrick é realmente um barato, e o que mais chamou-me a atenção foi a beleza extraordinária da Cinelândia, com pedras portuguesas limpinhas, bem ajardinada, e o melhor: sem mendigos. A Praça Paris, também, é outro ponto: podem passar quantos anos forem, mas ela sempre continuará bela. O que mais? Melhor assistir o vídeo. Duração de oito minutinhos com filmagens raras do espaço urbano carioca na década de 30.