26.6.10

Próxima estação... Cidade Nova

Espremido entre a Praça da Bandeira e o Centro, o pequeno bairro da Cidade Nova ainda vive sua fase de desenvolvimento com a chegada de modernosos edifícios empresariais e a estação Cidade Nova do metrô.


A PRAÇA DO Teleporto, no começo da Rua Afonso Cavalcanti e da Avenida Presidente Vargas. Na foto, o chafariz com o monumento da Dança das Águas e os prédios do Teleporto e dos Correios, ao fundo.


O post de hoje se trata de uma rua onde, muito embora, poderia representar também a essência do bairro todo. Este, em questão, é a Cidade Nova, no Centro, quase uma aldeiazinha. E a rua fotografada, a Afonso Cavalcanti, representa bem essa sua essência, baseada no desenvolvimento urbano graças à presença de modernosos edifícios. A revitalização, no entanto, começou a partir de meados da década de 1980, com a chegada do prédio do Centro Administrativo São Sebastião (CASS), da Prefeitura do Rio (veja foto à direita). Já na década seguinte, por exemplo, veio o prédio do Teleporto, que vem impulsionando até agora uma série de empreendimentos no local que desponta como novo pólo de desenvolvimento do Centro. Mesmo que ainda existam muitos terrenos vazios, a Rua Afonso Cavalcanti é um caso à parte, ela já representa o símbolo do que pretende ser a Cidade Nova - e eu fui lá!


LOCALIZAÇÃO CARTOGRÁFICA da Rua Afonso Cavalcanti, na Cidade Nova.
Grau de periculosidade sentida (de 0 a 5): 1.


Monumento na Praça do TeleportoComecei a minha caminhada ali pela praça em frente ao CASS e à creche Doutor Paulo Niemeyer, logo no comecinho (ou fim?) da Presidente Vargas, perto do Viaduto dos Pracinhas. A praça, sem nome identificado, fica aí reconhecida como a praça do Teleporto. A dita-cuja é bonita, mas ela costumava ser mais há alguns anos atrás, quando o seu chafariz realmente funcionava. Lembro-me de passar à noite por ali e o jogo de luzes e de jatos d'água valorizava demais a beleza do lugar, ainda mais pelo monumento da Dança das Águas que eu, particularmente, gosto bastante. Será nessa praça também onde desembocará um dos acessos da nova passarela da Cidade Nova, construída justamente para a conexão da Rua Afonso Cavalcanti com a futura estação do metrô, localizada no outro lado da Presidente Vargas. A passarela é extravagante, como as fotos não me deixam mentir - entretanto, a beleza da praça com suas palmeiras e plantas ainda não nos abala.

A Afonso Cavalcanti deixa de ser exclusiva para pedestres a partir da esquina com a Rua Pinto de Azevedo, o antigo "Piranhão". De um lado, o prédio do Teleporto e, do outro, o edifício do Bradesco Seguros, não tão alto assim. Dali em diante a Rua Afonso Cavalcanti passa a ser mais escura, devido às sombras do mar de prédios que se espraiam ao longo dela. Um detalhe interessante deste trecho é a sua arquitetura - embora moderna, ainda conserva uns resquícios de arquiteturas tradicionais do Centro, como os edifícios sustentados por umas pilastras monstrengas, que só ficam expostas devido ao recuo no térreo para abrigar algum tipo de comércio de pequeno e médio porte. No caso da Afonso Cavalcanti, o prédio do Teleporto fez uma releitura "muderna" das tais vigas, abrigando em seu comércio agências bancárias e restaurantes, como o Spoleto. Um outro detalhe muito legal por ali são as miniruazinhas formadas a partir do espaçamento entre um edifício e outro. Entre os prédios do Teleporto e dos Correios, por exemplo, surgiu uma rua de pedestres muito simpática, bastante arborizada. Acredito que seja mantida graças à iniciativa privada.


COMEÇANDO DA ESQUERDA: 1. Cruzamento da Afonso Cavalcanti com a Pinto de Azevedo. Observe que a região no entorno da Prefeitura foi a primeira a receber o novo modelo das placas-pirulito, em 2007. Por ali, os modelos são mais brutos que os convencionais visto que estavam ainda em fase de teste; 2. Trânsito na Afonso Cavalcanti; 3. Rua para pedestres entre os prédio do Teleporto e dos Correios.


Apesar do caráter bastante empresarial, a Rua Afonso Cavalcanti também conta com edifícios residenciais - altos, por sinal! - em muitos dos seus trechos. E são todos iguais, o que muda são as cores das pastilhas na fachada. O estilo deles faz parecer com que eles sejam datados da década de 1980, pois têm plays e garagens bastante suntuosas. O primeiro destes aparece na esquina com a Rua Visconde de Duprat, onde há uma pracinha bem agradável. Ela, no entanto, não consta em nenhum mapa que eu tenha checado, tanto no Google ou no Yahoo Mapas, o que é compreensível, afinal, o bairro é recente. Toda sua antiga estrutura fora demolida para dar lugar ao que é hoje. Bem ou mal, a praça conta com brinquedos, bancos e muitas árvores. Além disso, não sei se diariamente, mas no dia em que fui lá, rolava uma feirinha de roupas, artesanato, entre outras mercadorias. Nada de produto pirata, pelo que eu vi. Era bem familiar!

Confesso que nunca tinha estado a pé pela Afonso Cavalcanti antes desta vez em que fui lá fotografá-la. Sempre passava de ônibus, olhava rápido e a impressão que tinha era de que era uma rua bastante sombria, deserta e sujeita a assaltos. Olha, era um ledo engano. Tudo bem que fui na parte da manhã, de noite sabemos que a coisa muda um pouco, mas a Afonso Cavalcanti é extremamente movimentada. Muitos pedestres, de um lado e pro outro, uma grande movimentação de automóveis sem falar que não me senti tão ameaçado como costumo me sentir ao andar por ruas da região, como a Paulo de Frontin, Estácio de Sá e a própria Presidente Vargas. Foi uma surpresa agradável, assim como notar que a Afonso Cavalcanti conta com jardins bem cuidados, coisas que não se vê nas ruas anteriormente citadas.

Avançando um pouco mais, a partir da esquina com a Rua Amoroso Lima, pode-se começar a avistar imóveis de grande valor histórico e/ou de referência para o carioca. De um lado, o prédio do Arquivo Geral (à esquerda)da cidade, lugar que eu tô pra ir há um tempão já!, e do outro, uma simpática casinha onde funciona uma agência de atendimento da Nova Cedae. O imóvel, no entanto, apesar da roupagem nova, aparenta ser das antigas. O contraste entre ele e os outros prédios da rua fica bem legal (confira à direita), na minha opinião. Aliás, o que é legal ali são as quadras nada entulhadas da Cidade Nova. Entulhada, que eu digo, é que os edifícios e casas não são coladas umas ao lado das outras, é bem espaçado e isso confere uma aparência bem aldeã ao bairro.


O CRUZAMENTO DA Afonso Cavalcanti com a Amoroso Lima em dois momentos: no primeiro, com a agência bancária do Santander e a churrascaria Norte Grill e, na outra, com a agência da Nova Cedae.



O TRECHO FINAL da Afonso Cavalcanti, após a Rua Amoroso Lima, começa a mostrar ao pedestre a verdadeira aparência de grande parte do Centro do Rio: imóveis abandonados, pichações e abandono. A escassa arborização também é um dos pontos altos.


A história mesmo da cidade, a visão do antigo, fica de fato neste trecho, a partir da Amoroso Lima. A imponência ora modernosa, ora decadente da Afonso Cavalcanti sai de cena para dar lugar, de vez, a um Centro antigo, feio, degradado e pichado. O que parece ser os fundos do Hospital Escola São Francisco de Assis tá bem acabado. Na outra calçada, um imenso terreno funciona como estacionamento, compartilhando espaço com outros dois imóveis históricos da área da saúde, como a Escola de Enfermagem Anna Nery (à esquerda) - recém-pintada - e a Maternidade Thompson Motta (à direita), em estado de conservação duvidoso. Não sei se a maternidade está funcionando, mas deve ser preservada: é um imóvel histórico, dos poucos que se vê por aí. Andei mais e me deparei com o Centro Municipal de Saúde Marcolino Candau em outro prédio antigo, também meio às moscas, na esquina com a Rua Laura de Araújo. Mesmo assim, o movimento era grande na entrada do Pavilhão Carlos Chagas.

O final da Afonso Cavalcanti foi na chegada da Rua Carmo Neto e da passarela da Praça Onze - que não mais existe mais. O nosso logradouro de hoje passa a ser continuada através da Rua Benedito Hipólito, outra via importante, que abriga o Sambódromo e o acesso para o viaduto do Túnel Santa Bárbara. Por ali a energia já é meio pesada, aquela coisa meio duvidosa, que você não sabe o que te espera. Ou melhor, até sabe e fica doido para ir embora porque sabe exatamente o que pode acontecer. É o tipo de trecho que muitos conhecem somente através das janelas de seus carros e dos ônibus, mas que poucos andam a pé. Mesmo assim me atrevi a subir a passarela da Praça Onze, que liga esta até à outra extremidade da Presidente Vargas. Tirei muitas fotos de lá de cima! Fora isso, só para fechar, eu espero MESMO que a Cidade Nova se reinvente. Assim como o Estácio, Catumbi, Rio Comprido e a Avenida Presidente Vargas. Reciclagem é o que há! Um abraço!


VISTA DA AFONSO Cavalcanti através da passarela da Praça Onze. Na primeira foto, tem-se, ao fundo, o novíssimo edifício do Centro de Convenções Sul América. Na do lado, além do Corcovado ao fundo, a casa rosa é o Centro de Saúde Marcolino Candau, esquina com a Rua Laura de Araújo.

24.6.10

Panoramas Rápidos (13) | Cidade Nova




PROVAVELMENTE muitos não reconhecem essa esquina tampouco seus nomes: Rua Dom Marcos Barbosa com Rua Madre Tereza de Calcutá. Pois bem, esse cruzamento fica no bairro da Cidade Nova, bem perto ali do Teleporto e do Centro de Convenções Sul América. A rua da Madre Tereza, aliás, é o local de encontro para práticas de baliza dos alunos de auto-escolas da região. Enquanto a Cidade Nova ainda vive sua fase de desenvolvimento em pleno Centro do Rio, o legal de observar dali, especificamente dessa esquina, é o contorno do relevo do Maciço da Tijuca lá no fundo. No canto esquerdo, está o Cristo e o seu corcovado, bem pequenininho, olha lá! Gosto muito.

8.6.10

Jardim Oceânico – onde a Barra não é automotizada

Localizada em um bairro de acentuada heterogeneidade, a Avenida Monsenhor Ascâneo exibe um padrão onde o pedestre é mais valorizado, com calçadas largas e muitas árvores e jardins.



INÍCIO DA AVENIDA Monsenhor Ascâneo, na esquina com a Avenida Érico Veríssimo e a Praça Professor José Bernardino: local chama a atenção pela arborização intensa.


Antes de tudo, queria dizer que anda cada mais difícil de sair aí pelas ruas do Rio com a máquina na mão. Os compromissos principais têm me tomado grande parte do tempo, embora, principalmente, a sensação de insegurança me tem feito recuar a certos lugares, na maioria das vezes. Queria muito adentrar ruas de bairros desconhecidos, mas, infelizmente, aqui no Rio isso é meio impossível. Uma pena. Antes de sair de casa eu fico pensando em lugares legais que eu poderia ir sem me sentir totalmente ameaçado. Olhei o histórico do blog e vi: Barra da Tijuca. Só tinha ido uma vez lá, em setembro, para fotografar a Avenida Olegário Maciel. Resolvi retornar!


LOCALIZAÇÃO CARTOGRÁFICA da Avenida Monsenhor Ascâneo, na Barra da Tijuca.
Grau de periculosidade sentida (de 0 a 5): 0.


Saltei do ônibus ali pelas imediações da Avenida Érico Veríssimo e dei de cara com a Avenida Monsenhor Ascâneo, que eu já conhecia dos meus tempos de adolescente na praia da Barra. Sou louco por esquinas e, entre as muitas belas esquinas dali, a da Monsenhor com a Érico foi a que mais me chamou a atenção. Muita sombra e jardins! Dobrei um pouco mais a esquina, no intuito de ter um panorama mais amplo e decidi: vou ficar por aqui.


DETALHE DAS CALÇADAS: jardins bem cuidados e sombra, muita sombra.


A PREDOMINÂNCIA DE edifícios de poucos andares oferece um ar mais acolhedor e familiar à avenida e indica, através da sua arquitetura, o perfil socioeconômico da região.


Característica deste trecho da Barra, o Jardim Oceânico (futura estação de metrô da Linha 4), são os prédios de 3 a 4 andares. Edifícios baixinhos e bem amplos, com varandões, que dificelmente você vê pela Zona Sul. A arquitetura é outra, afinal a Barra é jovem. O significado de luxo que esses edifícios nos transmite deixa-nos cegos em meio a alguns um tanto quanto cafonas, desses em que o arquiteto se utilizou da intenção de produzir algo moderno, embora o resultado tenha ficado mais para o lado do kitsch. Beleza discutível.



A PRAÇA SÃO Odorico, à esquerda, localizada em um recuo da Monsenhor Ascâneo, e, no detalhe, dá para se ter uma idéia da largura da calçada.



UM OUTRO ASPECTO que se pode tirar da Avenida Monsenhor Ascâneo é em relação aos perfil dos moradores: o gosto pela Copa do Mundo é representado pelas pinturas no chão e no meio-fio. As fotos acima mostram o cruzamento com a Rua General Sidônio Dias Correia.


Contudo, o que realmente é indiscutível na Monsenhor Ascâneo é em relação aos filhotes dos edifícios: todos eles dispõem de um próprio jardim com, repleto de árvores, plantas e flores das mais diferentes espécies. Todos eles ficam exatamente alinhados às fachadas dos seus respectivos. E, claro, cada edifício cuida do seu. O esmero no cuidado ao verde fica ainda mais bonito em conjunto com a limpeza impecável da via. Sem lixo. É, isso mesmo! Nenhuma pontinha de cigarro, nenhum folhetinho de “compro ouro”, nenhum papelzinho de bala. O único de diferente que havia no chão e que poderia se assemelhar a um forte candidato às lixeiras seriam as folhas de amendoeiras, esparsadas pelas largas calçadas da Monsenhor Ascâneo. Tem lixo melhor que esse?


O QUE EU MAIS gostei na Avenida Monsenhor Ascâneo foi dos jardins. Logo, mais detalhes de canteiros, plantas e flores!


O trânsito por ali é quase inexistente. Se os edifícios fossem substituídos por casas igualmente bonitas, estaríamos em um pleno subúrbio norte-americano. Aliás, a Barra é um Estados Unidos dentro do Rio, todo mundo sabe e todo mundo que é de fora critica, mas é só chegar lá e sentir aquele clima que você reconhece que existe, sim, uma invejinha, lá no fundo da alma. A qualidade de vida é muito alta por ali – isso se você trabalha/estuda na própria Barra, porque o trânsito, ah, o trânsito... Como eu estava falando, o que mais vi o tempo todo na Monsenhor Ascâneo foram ciclistas, muitos deles! Eram mais bicicletas do que carros. E muita gente também correndo, caminhando, enfim, atividades de ginástica, em geral.


A MONSENHOR Ascâneo nas imediações da Rua General Ivan Raposo.


O FIM DA AVENIDA chega no encontro com a Avenida Professor Coutinho Fróis e a Praça São Perpétuo, à frente. Ao lado, o restaura Vice-Rey, instalada em uma das únicas casas da Monsenhor Ascâneo.


Exclusivamente residencial, no final da Avenida Monsenhor Ascâneo é onde aparece o primeiro estabelecimento comercial da via, o restaurante Vice-Rey, instalado numa casa rosa bem simpática. Isso já ali, bem de frente para a Praça São Perpétuo (a Praça do Ó, à direita) e para o motel Papillon, famoso por ter sido o local da noitada do Ronaldo Fenômeno com travestis, em 2008. A Barra tem disso: rolam escândalos como esse e como o da explosão do carro do bicheiro Rogério de Andrade – situações, em geral, envolvendo os novos-ricos, marca associada ao bairro e, também, motivo principal de preconceito por parte da elite da Zona Sul. Mas, querendo ou não, a Barra tem lá o seu valor. E tá muito mais à frente, em muitas das coisas. Contudo, acho que isso é assunto para outro post...

22.5.10

Crônica: "Papo de ônibus"

Foi na Rua Clarimundo de Melo, esquina com a Lemos de Brito, em Quintino Bocaiúva, que duas senhoras se resguardavam do sol escaldante carioca em um ponto de ônibus. As duas fizeram sinal para o mesmo coletivo, que ia para o Rio Comprido. Desajeitadas, e, principalmente, impossibilitadas de correr, em decorrência da idade já avançada, andaram em direção à entrada do ônibus, que parou alguns metros adiante.

A artificialmente ruiva ajudou a de cabelo grisalho a subir aquele alto degrau. Esta segurou a companheira em seguida, para que não caísse devido à arrancada que o automóvel deu após seu embarque. A que tinha cabelo grisalho carregava uma sacola de papelão com alça de plástico, onde continham alguns de seus pertences, como documentos, dinheiro, toalhinhas para secar o suor, um estojinho com esmaltes, lixas e uma bíblia de bolso. A (falsa) ruiva levava uma bolsa e um guarda-chuva grande e colorido, quase da sua altura, que servia de sombrinha. Ambas pareciam mestras em malabares ao passarem pela roleta com tanta “bagagem”.

Por coincidência, calhou de sentarem juntas.

“Menina, que sufoco, hein!”, suspirou a ruiva, sentada na ponta.
“Pois é, minha filha, parece que eles fazem até de propósito, né?”, argumentou a outra, apoiando sua sacola de forma que pudesse ficar mais confortável naquele estreito e incômodo banco.
“Nem me fale! Desde que meu médico falou que eu tô com problema de artrose eu já não vivo mais em paz. Consigo fazer mais nada, acredita?”
“Não brinca! Tu sabe que a minha vizinha também tá assim? Caso sério!”, disse a de cabelo grisalho, enquanto tentava fechar, com força, a sua janela, para que o vento não a desgrenhasse.

O ônibus fez uma curva brusca à direita na Rua Dois de Fevereiro, fazendo com que a ruiva escorregasse de seu assento, sendo logo acudida por um estudante de cabelos lisos e compridos, bem na altura dos ombros. Vestia o uniforme de um colégio das redondezas e um piercing nos lábios inferiores. Ele estava prestes a saltar.

“Deus lhe pague, viu, querido? A vida não tá fácil pra gente não!”, agradeceu a ruiva. “Vai com Deus e, oh, estuda, viu! Essa é a melhor coisa que você pode fazer! Maior virtude”, enfatizou ela, com um aceno do rapaz através da porta de desembarque.

A de cabelo grisalho reabriu a janela, para dar um refresco de ar à nova colega, enquanto a ruiva se reorganizava no banco, reposicionando os pertences.

“Esse rapaz é bonzinho, né, apesar de ter aquele negócio na boca. Troço estranho, você não acha?”, retrucou a da janela.

Outra curva brusca. Agora, à esquerda, na Borja Reis. Uma mulher, trintonta, levantou-se para xingar o motorista de veado.

“Meu Deus, essa juventude tá perdida. Mas até que eu gosto de um barraco, sim, dá uma animadinha nos passeios. Porque você sabe que a vida tá muito difícil, né, é só desgraça atrás da outra, fez dois anos que sou viúva no último dia 15 de abril”, desabafou a ruiva, com uma mudança no semblante. Surgiram-lhe lágrimas nos olhos, rapidamente secadas com as mãos.

A de cabelo grisalho também se comoveu.

“Ih, eu também, mas eu já tô assim desde 28 de setembro! Ano de mil-novecentos-e-noventa-e-um! Não me esqueço mais... Foi um dia depois de São Cosme e Damião. Ele morreu de intoxicação, comeu algum doce estragado. Nessa época eu ainda tinha saúde, né, pra sair por aí distribuindo doce...”.
“Ih, minha filha, se o doce tava estragado, deve ter morrido um monte mais de criança, né, não?”.

As duas caíram na gargalhada. Comportavam-se como amigas de longa data. Enfrentaram todo o trânsito da Rua Dias da Cruz trocando dicas de tricô, simpatias para mau olhado (“mas Deus é meu maior protetor”, dizia a de cabelos naturais), falaram sobre os acontecimentos da novela no capítulo do dia anterior e sobre o preço (alto) da carne em um supermercado popular. Volta e meia, uma ou outra interrompia a conversa para queixar-se de algo, fosse pelo joanete – que começou-lhe a doer naquele determinado minuto –, fosse pela fila gigantesca que a de cabelo grisalho acabara de enfrentar, no banco, para receber seu pagamento.

O ônibus já estava na Barão do Bom Retiro, quase entrando nas alamedas do Grajaú, quando a ruiva se levantou.

“Chegou minha hora de soltar, tô até atrasada!”, avisou ela, puxando a cordinha.
“Ah, que pena, foi muito bom. Já sabe onde moro, né?”.
“Sei sim, tenho uma conhecida que mora por ali!”.
“Então aparece lá pra tomar um dedinho de café!”.
“Vou sim, pode deixar. Tomara que não chova hoje, né, tempo tá ficando esquisito! Bom, deixa eu ir, querida, beijo na família”.

A ruiva saltou, gesticulando um tchau.

Enquanto o ônibus aguardava o sinal verde, a de cabelo grisalho observava o lado de fora, pela janela. Avistou a colega atravessando a rua. Carregava sua bolsa, o guarda-chuva grande e colorido e uma sacola de papelão, com alça de plástico. A sua sacola de papelão. Com todos os seus pertences.


por PEDRO PAULO BASTOS, autor do blog As Ruas do Rio, e que, às vezes, sai escrevendo histórias que acabam dando como nessa daí.

18.4.10

Flanando, faraniando...

Rua em Botafogo traz um misto de arquiteturas clássicas - e sombrias! - acolhidas pelo espírito jovem-universitário da galera que por ali transita





A Rua Farani, no bairro de Botafogo, é aquele tipo de rua que todos conhecem de nome, que serve de referência para localizações rápidas, embora poucos, de fato, andem por ali. A não ser quem mora pela região. Ou, por quem estuda em alguma das universidades do bairro e faz um stop lá para a confraternização - alcóolica - do dia, junto dos amigos. Pequenininha, ela começa na Praia de Botafogo e termina lá em cima, na Rua Pinheiro Machado, já no iniciozinho do bairro das Laranjeiras. Logradouro curioso. Na Farani rola uma mistura do feio com o bonito, do antigo com o moderno, do alternativo com o popular. Acompanhe o texto e as fotos e tire suas próprias conclusões!



A FARANI TEM INÍCIO na Praia de Botafogo e termina lá em cima, na Rua Pinheiro Machado. Na foto da direita, pode-se ter uma noção da bela paisagem que é a Praia de Botafogo, vista através da Farani.




NA ESQUINA COM A Praia de Botafogo, uma filial da Caixa ocupa um prédio histórico da Rua Farani. Bem simpático!


Um dos meus maiores receios, ultimamente, ao fotografar as rua do Rio é a questão de segurança. Sair por aí com uma câmera nas mãos não tem sido fácil; prestar atenção nos malandros quase supera o meu nível de concentração em observar os detalhes urbanos aos quais gosto de admirar em uma rua. Na esquina da Farani com a Praia de Botafogo, os casos de "assaltinhos" são bem comuns por pivetes. Vi alguns por ali, no semáforo, mas continuei na minha. Meu anjo da guarda me protege, haha... Pois bem, de um lado da esquina, uma casa charmosíssima, provavelmente de um século remoto, ocupada por uma filial da Caixa. Do outro, uma casa de sucos, dessas que vendem sucos (é claro!), mates, joelhos, pastéis, sandubas naturais... Trânsito intenso. Adoro muvuca urbana.



COM SOMBRINHAS QUE protegem o pedestre do tenebroso sol carioca, muitos dos sobrados e imóveis da Farani funcionam, hoje, como estabelecimentos comerciais, além de bares e restaurantes alternativos.


Ao adentrar a Rua Farani, a primeira impressão que se tem é de que se trata de uma rua sombria. Talvez essa denominação seja um pouco exagerada pois a Praia de Botafogo é bem clara, aquela visão maravilhosa, árvores, e bastou entrar numa ruazinha logo ali do lado para que a escuridão apodere os seus olhos. Mas isso tem uma explicação: apesar da localização privilegiada, grande parte da arquitetura da Farani é muito esquisita. Sabe aqueles prédios que existem na Avenida Presidente Vargas, sustentado por pilastras monstrengas pilotis, que cheiram muito mais a xixi do que o seu próprio excremento? Então, essas (nada) simpáticas vigas também fazem parte da Rua Farani, servindo de mural público, repleta de pichações e de propagandas coladas de "Compro ouro", "Ganhe dinheiro", "Meninas sapecas", entre outros. Logo, quando tais edifícios (muitos deles residenciais) são sustentados por essas altas pilastras, existe sempre um recuo - sombrio! Fica realmente escuro! - onde brota o comércio. Assim, lojinhas populares, como óticas, salões de beleza e farmácias passam a competir em espaço com os bares - verdadeiros pontos de encontro da galera universitária na região.



O CRUZAMENTO DA Farani com a Rua Barão de Itambi e a Praça Chaim Weizman ao fundo.


Em Botafogo existem muitas universidades. Só ali no entorno da Farani está a Fundação Getúlio Vargas, a IBMR, a FACHA (Hélio Alonso) e, por fim, a Universidade Santa Úrsula, mais lá pra cima, na Pinheiro Machado. O perfil jovem, de mochila nas costas, que circula pela Rua Farani é marcante, assim também como muita gente bem alinhada e de diferentes idades, mas não porque o local seja chique, sofisticado; é que tem muitas empresas e escritórios por ali, como a própria FGV, que não permite que alguém entre lá de qualquer jeito. Enfim... Como o público é variado, os restaurantes bacaninhas não poderiam faltar. Ainda na primeira quadra, entre a Praia de Botafogo e a Rua Barão de Itambi, têm muitos sobrados antigos que foram restaurados e hoje abrigam tais restaurantes, bastante alternativos, entre eles o Miako (comida japonesa), o Casa da Sogra (pé sujo quase limpo) e o Mizu (incrível combinação de comida japa com mexicana).



A BIBLIOTECA MUNICIPAL Machado de Assis, mais conhecida como a Biblioteca de Botafogo, é um dos pontos principais da adorável Praça Chaim Weizman. Construção da década de 20, o imóvel pertenceu à família Castro Maya.




APROXIMANDO-SE DO final da rua, a Praça Chaim Weizman perde um pouco da sua beleza para dar espaço ao acesso a uma passarela de pedestres, que passa sobre a Rua Pinheiro Machado. Na foto à direita, as citadas lojas populares, localizada no recuo dos edifícios sustentados pelas vigas nada estilosas.


Na esquina com a Barão de Itambi, um posto de gasolina; do outro, uma praça linda. A dita cuja é a Praça Chaim Weizman, repleta de gigantescas palmeiras, árvores, jardins floridos e, ao fundo, uma casa bastante atraente, de modelo neoclássico, do final da década de 1920: a Biblioteca Popular Municipal Machado de Assis, anteriormente residência da família Castro Maya. Casa muito charmosa em praça idem, que já simboliza o fim da Rua Farani, lá na confluência da agradável (e caótica) Rua Pinheiro Machado, em frente à Santa Úrsula. É. Uma vez mais, localização bem boazinha.



À ESQUERDA, moça caminha pela ampla calçada da Farani, entre as ruas Jornalista Orlando Dantas e Pinheiro Machado. Na foto à direita, o fim da Rua Farani, com vista para a Universidade Santa Úrsula e a Rua Pinheiro Machado.



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