14.4.10

Rio & Geografia: Os ônibus (Parte 5/5)




Parte final

Linhas extintas
Como eu já disse lá nos primeiros post, o carioca tem um carinho especial em relação os ônibus e suas linhas, por mais problemas que apresentem. O ônibus faz parte da nossa vida, seja por ser o nosso meio de transporte, seja pelo seu design arrojado ou pelo estardalhaço que provoca ao frear na frente da sua casa ou edifício... Enfim, todas essas são formas de relacionamento - boas ou más. E às vezes esse tipo de assunto provoca, sim, nostalgia. E isso fica mais evidenciado quando lembramos, é claro, o passado, o que existia... e lembramo-nos das linhas de ônibus já extintas. Você pode ter demorado para perceber, mas algumas somem sem explicação. Outras desaparecem por pressão social. Enfim! Vai aí uma listinha de algumas linhas que já não existem mais:



174 - Central x Gávea (após o fatídico sequestro da linha pelo criminoso Sandro do Nascimento, em junho de 2000, a 174 foi retirada de circulação por ter ficado associada ao triste episódio. Substituída pela atual 558)442 - Lins x Urca (diz a lenda que essa linha foi desativada através da pressão dos moradores da Urca, que não queriam "suburbanos" em sua praia)
202 - Colégio Militar x Praça XV454 - Grajaú x Leblon (Via Rua Haddock Lobo/Santa Bárbara)
207 - Rodoviária x Lapa (Via Estácio/Praça Afonso Pena)500 - Pão de Açúcar x Barra (Via Orla/Alvorada)
221 - Maracaí x Praça XV (Via Mariz e Barros / Usina)558 - Horto x Praça General Osório
230 - Rodoviária x Boca do Mato (hoje o trajeto é operado pela linha 606, que estendeu seu itinerário até o Engenho de Dentro e conta com linhas especiais que circulam pela Boca do Mato)605 - Lins x Rodoviária (Via Avenida Marechal Rondon)
274 - Maria da Graça x Castelo (Até pouco tempo, a 274 funcionava como Méier x Tiradentes e, hoje, já não circula mais)626 - Penha x Praça Saens Peña (Via Del Castilho/Méier)
369 - Pedra de Guaratiba x Largo de São Francisco640 - Vigário Geral x Praça Saens Peña
404 - Colégio Militar x Jardim de Allah (a partir do ano 2000, essa linha passou a operar apenas entre o Rio Comprido e a Zona Sul, mas foi desativada no final de 2008)675 - Méier x Penha (Via Inhaúma)
416 - Forte x Usina (Via Túnel Santa Bárbara)700 - Vigário Geral x Barra da Tijuca
410 - Praça Varnhagem x Praça Antero de Quental (a 410 ainda funciona, mas com itinerário Saens Peña x Gávea)953 - Pavuna x Bonsucesso


As ruas do Rio podem perder o seu colorido
No final de 2009, o prefeito Eduardo Paes decretou que as empresas de ônibus do Rio deveriam entrar em um acordo em relação a um design padronizado dos veículos, dando um fim nas pinturas tão tradicionais e famosas dos ônibus. Observe a repercussão, em reportagem do jornal O Dia, de março de 2010:

Fernanda Alves e Mahomed Saigg - Jornal O Dia

Prefeitura quer que todos os ônibus da cidade sejam padronizados por região até a Copa de 2014. O gasto para mudar a frota é calculado em R$ 80 milhões. Empresas e usuários que reconhecem linha pela cor rejeitam proposta

Rio - A Prefeitura planeja padronizar os ônibus da cidade. A ideia é pintar todos os coletivos de uma cor só, levando em consideração as regiões para onde vão. Publicado em decreto no Diário Oficial de 3 de novembro, o projeto, que ainda está em estudo, tem a intenção de deixar o Rio mais bonito para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. Mas não foi recebido com bons olhos pelas empresas de ônibus nem pela população.

Para pintar os 8 mil ônibus da cidade, as empresas vão gastar um total de R$ 80 milhões. Procurada, a Fetranspor preferiu não comentar.

A primeira proposta apresentada pela Prefeitura sugeria ônibus de duas cores: azul-bebê e salmão. A parte de baixo, na altura das rodas, teria um friso com o desenho do calçadão da Praia de Copacabana estilizado. Os primeiros modelos não agradaram às empresas. Segundo os empresários, a parte que receberia o friso é a que mais se danifica e o concerto ficaria mais demorado.

As empresas pediram, então, para que outras opções fossem confeccionadas. Segundo a Secretaria Municipal de Transporte, o layout não foi definido.

Nas ruas, os passageiros preferem continuar com os veículos diferentes e coloridos. “Vai ficar mais difícil identificar o ônibus. Todo mundo já grava pela cor. Muita gente vai errar. Tem coisas mais importantes para o prefeito resolver ”, reclamou a estudante Maysa Mazzeo, 21 anos.

A aposentada Geneci Santos, 68, não gostou da notícia. Com catarata, ela tem dificuldade para enxergar de longe e teme problemas na hora de se locomover pela cidade. “Vou ter que perguntar às pessoas no ponto qual o ônibus que está passando”, prevê.

Apaixonado por ônibus, Sydney Júnior, 49 anos, ficou insatisfeito quando soube da intenção do prefeito Eduardo Paes. “Sou contra. Não vou querer mais colecionar miniaturas de ônibus do Rio”, lamenta. O busólogo tem em casa 67 miniaturas e reclama que a padronização vai tirar a graça da sua paixão pelos veículos. “Em meu site fiz uma pesquisa sobre a alteração e o resultado foi unânime. As 100 pessoas que votaram foram contra”, revela o dono do portal www.cidadeonibus.com.

Colorido dos veículos já é uma marca da cidade

O engenheiro de transportes Fernando Mac Dowell torce para o projeto não sair do papel. Para ele, além de confundir os usuários, a padronização dos ônibus não combina com o Rio. “Vai ficar monótono, sem graça. Nós sempre fomos conhecidos pelos ônibus coloridos. Vamos perder uma de nossas marcas”, acredita, elogiando a criatividade das empresas ao criar o layout dos veículos: “É tão legal ver os diversos modelos criados pelas empresas”.

Mac Dowell adianta que existem problemas do transporte carioca que precisam ser pensados com mais prioridade do que a cor dos ônibus. “Temos que resolver falhas sérias de metrô e trens. Poderíamos pegar os R$ 80 milhões dos gastos com pintura e usar em abatimento de passagem”, sugere.

O busólogo (apaixonado por ônibus) Jaílson Abreu, 29, lamenta a mudança. “Muitas pessoas nos admiram pelos ônibus. Vêm aqui para tirar foto com os diversos modelos. Agora vai ficar sem graça”, desabafa. Ele tenta entender a decisão da prefeitura: “Acredito que estejam fazendo isso para passar uma ideia de transporte organizado, mas é só maquiagem”. Ele ainda tem a esperança de que a alteração não aconteça: “A população não vai concordar, e eu espero que mudem de ideia”.

8.4.10

Rio & Geografia: Os ônibus (Parte 4/5)




Continuação

ILHA DO GOVERNADOR
Talvez este seja um dos lugares no Rio com o maior índice de precariedade em transportes coletivos, como os ônibus. Composta por dezesseis bairros, apenas pouco mais de vinte linhas circulam por essa região da Zona Norte que, para dificultar ainda mais a fluidez do trânsito, conta com apenas uma entrada e saída – a Linha Vermelha. Ainda que o Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão, esteja localizado lá, isto parece não ser motivo suficiente para que a Ilha esteja bem integrada com a cidade. Além dos poucos ônibus que circulam por lá, monopolizados em grande parte pela Paranapuã (na foto à direita, a Linha 910, que faz o percurso Bananal - Madureira) e a Ideal (na foto à esquerda, a Linha 925, operada pela Ideal entre Bancários e o Castelo), a maioria dos veículos circulam em estado deplorável, verdadeiras carcaças ambulantes. Uma experiência minha com um dos ônibus da Paranapuã foi com a linha 634, que faz o trajeto Freguesia – Praça Saens Peña, quando eu estudei por um tempo no Fundão; lembro-me da sujeira escandalosamente aparente dos assentos, das fendas soltas e do choque que levávamos ao segurarmos as barras de ferro do coletivo, onde os fios da campainha estavam sempre soltos e à mostra. Esse é um panorama não só da linha 634, mas também de toda a frota destas empresas operantes na Ilha do Governador. E mais: ônibus velhos, com atrasos e irregularidades, além das linhas variantes e extraordinárias, que aparecem quando você menos espera - e desaparecem quando você mais deseja.

A falta de itinerários alternativos também é um grande problema. Os moradores da Ilha que vivem em função dos ônibus estão restritos a lugares do subúrbio, da Zona Norte e do Centro. Ônibus para a Zona Sul restringem-se apenas àqueles refrigerados e especiais, que vão para o aeroporto, com tarifa na faixa dos R$ 10 reais. Quer ir para a Baixada ou para a Zona Oeste? Desista. Ou então pegue mais de duas conduções. Definitivamente, a Ilha é um dos piores lugares nessa questão de ônibus, contribuindo e muito para o avanço dos transportes piratas como vans e kombis ilegais.


SUBÚRBIOS
O subúrbio, em geral, como já foi retratado no caso do Grande Méier, tem um grande diferencial na disposição de suas ruas e avenidas em relação ao núcleo da cidade; a zona é pouco espremida entre os morros, permitindo uma maior fluidez das vias em diferentes direções. Uma espécie de São Paulo carioca. A interligação entre os bairros do subúrbios é boa devido à proximidade entre eles, embora a conexão com o Centro seja bastante difícil por duas questões muito relevantes: as vias do subúrbio são, como um todo, mal projetadas (isso se algum dia foram planejadas), além das áreas de risco que se encontram pelo meio do caminho, em grandes quantidades. Ademais, o serviço de ônibus nesta área, antes de tudo, é dificultado por algumas áreas de risco existentes nesta zona. Regiões próximas a favelas, em geral, tendem a sofrer de ataques violentos como depredações, ateamento de fogo aos veículos e assaltos. Logo, determinados logradouros e bairros acabam por ser mal atendidos.

Apesar do grande espaço geográfico, o número de avenidas e ruas largas que tenham a capacidade de receber e transportar ônibus para diferentes zonas da cidade é desproporcional à sua extensão, o que contribui para a concentração das linhas em eixos principais, como as ruas que beiram as linhas férreas e avenidas como a Dom Hélder Câmara, Brasil, Leopoldo Bulhões e Pastor Martin Luther King.

Assim como na Ilha, ônibus para a Zona Sul são escassos. Linhas como a 456, 457, 484, 485 e 497 circulam lotadas, sempre, e atendem à apenas uma parte do subúrbio. Linhas para o Centro da cidade existem em abundância, o que é bom, assim como as linhas circulares dentro da região, como a 624 (Mariópolis – Praça da Bandeira), 667 (Madureira – Méier), 680 (Penha – Méier) e 711 (Rocha Miranda – Rio Comprido, foto à esquerda). As citadas linhas, de trajetos longos, percorrem todo o subúrbio e áreas da Zona Norte a fim de alimentar as vias secundárias e terciárias que não são atendidas, como também, por exemplo, a linha 623, a única que atravessa o Túnel Noel Rosa. A concentração de ônibus para Jacarepaguá, Barra da Tijuca e o resto da Zona Oeste ainda se localiza nos bairros de Madureira e Cascadura, que, mais do que bairros, são quase um grande terminal de linhas ônibus.

ZONA OESTE
Enquanto no Leste do Rio de Janeiro o excesso de ônibus que circulam pelas ruas e avenidas gera polêmica, na Zona Oeste o caso é contrário: a escassez desse meio de transporte é um grande e grave problema, que afeta, diariamente, milhares de moradores de Bangu, Realengo, Campo Grande, Santa Cruz, entre outros bairros da região. Neste caso, há diversos fatores que contribuem para o péssimo serviço dos ônibus na Zona Oeste:

Longos percursos
Embora bairros como Santa Cruz e Campo Grande sejam verdadeiras cidades dentro do Rio, portadores de grandes sub-bairros e até mesmo um Centro dentro de seus territórios, o Centro do Rio ainda é o Centro econômico, o local gerador de empregos para grande parte da população carioca, principalmente à da Zona Oeste. Portanto, a quantidade de ônibus que se destinam ao Centro não chega a ser nem perto do suficiente para atender toda esta demanda. Soma-se à isso a verdadeira batalha que é para ir da Zona Oeste para o Centro, que fica na extremidade leste do Rio: a distância natural entre esses dois pontos mistura-se, também, aos engarrafamentos quilométricos na ida e volta para a casa, podendo implicar, até mesmo, no custo das tarifas (mais elevadas, é claro!).

Baixa qualidade de serviço
Se não bastassem os “perrengues” que a população da Zona Oeste enfrenta, as empresas que operam nesta área, volta e meia, são indiciadas pela baixa qualidade de seus serviços, com veículos velhos e sujos, além da frequência irregular das linhas, que acabam não operando nos intervalos de tempo pré-determinados. Em setembro de 2009 foi noticiado que 47 linhas de ônibus das viações Feital, Ocidental e Oriental seriam cassadas pelo péssimo estado de suas frotas. De acordo com a reportagem, do Jornal O Dia, uma passageira conta que a linha 398 (Campo Grande – Tiradentes), da viação Oriental, vive em frangalhos, com janelas e bancos quebrados, baratas e atrasos constantes. Na verdade, apenas um exemplo, como este, pode ser generalizado como o real panorama – e o drama – de quem depende dos ônibus na Zona Oeste. Já a linha 390, que liga o bairro de Sepetiba ao Centro, da Viação Oeste, cobra R$ 4,40 por um serviço de lixo, com atrasos e lotações desumanas.


A VIAÇÃO FEITAL, alvo de reclamações constantes na Zona Oeste, largou de mão a linha 367 (Praça XV - Realengo), em Agosto de 2009, sem razão alguma, e circulava apenas com 10% dos ônibus da linha 756 (Barra da Tijuca - Senador Camará). No entanto, a 367 foi incorporada à Viação Bangu, em março de 2010, após ter passado pela mão da Viação Campo Grande alguns meses antes, cujo sucateamento se compara à Viação Feital. Além disso, apesar da foto acima retratar um dos veículos da Feital no ano de 2005, não significa, necessariamente, que modelos mais novos tenham sido incorporados à frota. .



A IMPLEMENTAÇÃO da nova linha E05, que liga Urucânia ao Largo da Carioca: a placa com o itinerário e o modelo dos veículos.


Reestruturação do sistema de ônibus
Desde o ano passado, a Zona Oeste vem recebendo novas linhas de ônibus para melhor atender à população. Além das linhas que integram ao metrô, como as que saem de Bangu e Santa Cruz à estação Coelho Neto, na linha 2, em janeiro de 2010 foram inauguradas as linhas 363 (Roque Barbosa – Tiradentes), 364 (Gericinó – Tiradentes) e 802 (Taquaral – Bangu), sendo este último circular ali pela Zona Oeste mesmo. Entre a Rua Roque Barbosa, em Bangu, e a Praça Tiradentes, no Centro, são 82,2 km, contra os 90,40 km percorridos pela nova linha 364. Uma distância e tanta! Além destas, visando o conforto dos moradores da Zona Oeste, foram criadas outras duas linhas, ministradas pela viação Expresso Oeste, com ar condicionado em modelos semi-rodoviários, sendo elas as linhas E04 (Cosmos – Carioca) e E05 (Estrada da Urucânia – Carioca). O conforto, no entanto, tem seu preço: a tarifa custa R$ 4,80. Até que está em conta, uma vez que existem linhas do mesmo nível de conforto – bancos reclináveis e refrigeração – custando mais de R$ 5 em trajetos bem mais curtos, como do Grajaú ao Castelo ou do Leblon à Rodoviária. De todos os modos, é uma safadeza – com o perdão da palavra.

*A fonte das fotos está contida nelas próprias.

4.4.10

Rio & Geografia: Os ônibus (Parte 3/5)




Continuação

GRANDE MÉIER
O Méier, como um bairro bastante central dentro da área suburbana da Zona Norte, concentra diversas linhas de ônibus e paradas finais. Diferentemente de regiões como a Zona Sul e a Tijuca, que são espremidas entre os maciços rochosos, a região do Méier é mais aberta, onde as ruas se espraiam em distintas direções, contribuindo assim para uma maior diversificação dos itinerários. Mesmo assim, carece de críticas. Na Rua Dias da Cruz, por exemplo, principal via do bairro, não existe nenhuma linha de ônibus que conecte à Zona Sul. Ao Terminal Rodoviário Novo Rio, a linha 606 (foto à esquerda) é uma das opções, embora, para isso, o passageiro tenha que percorrer o Grajaú, Andaraí, Tijuca e a Praça da Bandeira para se chegar até lá, quando se o coletivo utilizasse a Avenida Marechal Rondon como caminho teria grande parte do tempo de percurso reduzido. Já no “outro lado” do Méier (o bairro é cortado pela Linha Férrea), onde se situa o Jardim do Méier, não existem linhas de ônibus que percorram a Avenida Rio Branco, no Centro da cidade.


A VERDUN, empresa de ônibus que circula na região do Méier, é famosa por seu design em azul e administra linhas como a 247 (Camarista Méier-Passeio), 238 (Água Santa-Praça XV) e 455 (Méier-Copacabana).


Mais alguns outros exemplos: com a Linha Amarela logo ali ao lado, no bairro do Engenho de Dentro, ir do Méier à Barra de ônibus é quase um sufoco. Pode ser que eu esteja enganado, mas até pouco tempo a linha 691 (Méier-Alvorada) usava a Linha Amarela como caminho até a Barra, porém descia na primeira saída, fazendo um demorado passeio pelas vias do Pechincha, Freguesia e Cidade de Deus. No Lins, bairro mais ao sul do Méier, apenas uma linha de ônibus percorre a Rua Lins de Vasconcelos, principal do Lins, que é a 232 (Praça XV – Lins). Esporadicamente surge uma variação da 232, chamada de S09, fazendo o trajeto Lins – Leme. Mas ninguém nunca sabe quando passa... É na sorte!

BARRA DA TIJUCA e RECREIO
A Barra da Tijuca hoje é uma das áreas mais bem equipadas da cidade; afinal, o vetor de crescimento urbano nas últimas décadas foi em direção a esta região, que engloba também o Recreio dos Bandeirantes, ainda em fase de crescimento e estabilização. Ao mesmo tempo que o transporte público, como os ônibus, na Barra e no Recreio, fiquem em segundo plano – justamente pelo poder aquisitivo dos moradores de se locomoverem à base de automóveis particulares –, a região é bem servida de ônibus. A grande questão mesmo fica por conta dos monstruosos engarrafamentos; portadores de majestuosas avenidas, como a das Américas, que chega a ter quase sete pistas em determinados trechos, a estrutura rodoviária da Barra não coincide com a do resto da cidade, caracterizada por avenidas de largura limitadas, seja pelo mar e pela montanha, ou pela falta de planejamento no início da ocupação urbana da cidade. Um exemplo claro disso é a conexão da Barra com a Zona Sul: a Av. Niemeyer e o Túnel Zuzu Angel não comporta o fluxo de trânsito proveniente da Barra. Logo, por mais que a Barra esteja bastante integrada por ônibus com Jacarepaguá, Bangu, Santa Cruz, Alto da Boa Vista, Zona Sul, Centro, o acesso ao bairro é ruim, independente do meio de transporte que se utilize. O metrô, previsto para ser inaugurado no Jardim Oceânico em 2015, pode ser o caminho para uma salvação, principalmente para o Recreio, um dos bairros mais isolados do Rio nos dias de hoje.


A LINHA 179, da Real Auto Ônibus, transita pela Avenida Olegário Maciel, conectando a Barra da Tijuca ao Centro do Rio, via Zona Sul.


JACAREPAGUÁ
Jacarepaguá e sua região, na Zona Oeste, é um dos lugares no Rio que possui os piores acessos em direção ao Centro. Rodeada por montanhas e áreas florestais, os ônibus precisam respeitar tais limites para percorrer seus itinerários, que tornam-se, muitas das vezes, cansativos e longos. Algumas das conexões com o Centro, muitas delas feitas através da Av. Menezes Côrtes (Grajaú-Jacarepaguá), que corta a Serra dos Três Rios, em linhas como a 240 (Praça XV – Cidade de Deus) e a 269 (Praça XV – Curicica), e a 2113 (Castelo – Taquara), que vai para o Centro através da Zona Sul – linha esta, aliás, que custa R$ 4,40, 87,2% mais cara em relação ao preço regular das tarifas. Apesar disso, Jacarepaguá é bem integrada com a Zona Oeste e com a Zona Norte, principalmente com a Barra e Madureira, respectivamente. A ligação com a Zona Sul é feita através da 2113 ou das linhas 750 e 755 (Cidade de Deus e Cascadura-Gávea), isto é, uma ligação tímida, de pouca variedade e/ou opção. A inauguração da Linha Amarela, na década de 1990, facilitou o acesso de Jacarepaguá aos subúrbios da Zona Norte, embora a maioria das linhas de ônibus que transite entre essas regiões se utilize da Rua Cândido Benício, no acesso de Campinho à Jacarepaguá, prova de um mal gerenciamento dos itinerários, que visa o lucro das empresas de ônibus como prioridade.


O MAPA MOSTRA, os acessos e saídas da região de Jacarepaguá para diferentes zonas da cidade: apesar da boa integração rodoviária com a Zona Oeste e a Barra da Tijuca, Jacarepaguá é isolada em relação ao Leste (zonas Central, Sul e parte da Norte), seja por suas limitações geográficas ou por áreas de risco. Clique para ampliar.


Logo, assim como a Barra e o Recreio, o grande problema de Jacarepaguá são seus poucos acessos e saídas, que torna as viagens muito longas. A remodelação dos itinerários pode até ser repensada em menor escala, como, por exemplo, quais vias dentro da própria região de Jacarepaguá determinados coletivos transitariam, de forma a agilizar seu percurso para fora da mesma. Entretanto, variedade de opções de como se chegar a outros lugares do Rio a partir de Jacarepaguá são quase inexistentes, tendo, não só os ônibus, mas como todos os meios de transporte, de respeitarem o contorno das montanhas e das opções de vias disponíveis.

Fontes das fotos, por ordem de aparição:
1 - Disponível em Na Poltrona Bus Brasil. Acesso em 04/04/10, às 20h45.
2- Disponível em Busologia do Rio. Acesso em 04/04/10, às 20h33.
3 - Disponível em Oeste Ônibus. Acesso em 04/04/10, às 20h55.

31.3.10

Rio & Geografia: Os ônibus (parte 2/5)





Os cariocas têm uma grande afeição às linhas de ônibus. Isto é, refiro-me àqueles que usam tal meio de transporte, pois nem todos o utilizam. Mesmo assim, independente da condição social ou do lugar onde mora, todos pegam ou alguma vez subiram em algum coletivo. Ainda assim, mesmo quem nunca tenha pego – o que eu acho difícil! -, conhecê-los de vista, pela cor, pelo número, todo mundo conhece, o que comprova que os ônibus são figuras bastante marcadas na cidade. Uma relação de amor platônico, que deriva em nomeações criativas como “quatro doidão” (referência à linha 422, na foto acima), “laranjinha”, “amarelinho” ou, então, em divergências na leitura dos números: o 247 pode ser chamado de “dois-quatro-sete”, enquanto outros chamarão de “duzentos e quarenta e sete”. O cara que faz uso da primeira nomenclatura fará cara feia ao ouvir o soar da segunda e vice-versa. Os ônibus são figuras carioquíssimas - repito -, é parte do nosso cotidiano, mesmo que não percebamos.

No entanto, os ônibus do Rio encontram-se em uma linha tênue entre o amor e o ódio. A dificuldade de locomoção em uma cidade cercada de morros, com vias bastante deficientes acoplada aos interesses da esfera privada, faz com que o carioca sofra com os itinerários pouco eficazes. Itinerários repetitivos, que sobrecarregam as ruas e avenidas. Sem falar no monopólio das empresas que dominam determinadas áreas do Rio, prestando serviços aquém do exigido, tarifas exorbitantes e – uma vez mais – com itinerários ultra semelhantes.

Enumerei alguns exemplos em diferentes regiões da cidade. Acompanhe.

CENTRO
A área mais bem servida de linhas de ônibus. Motivos são óbvios: é o Centro da cidade. Dali se encontram linhas para todos os lugares do Rio, embora o excesso no número de veículos sobrecarregue de forma decisiva todas as ruas desta região, cujas quais a maioria não conta com largura adequada para o recebimento de um grande fluxo de veículos. Logo, os dois grandes eixos viários do Centro (as avenidas Presidente Vargas e Rio Branco) viram um mar de ônibus nos quais, muitas das vezes, estão vazios. Quantidade de linhas, no Rio, é um sinônimo de qualidade, de serviço bem prestado, o que em realidade isso não consta nem um pouco. Redução no número de linhas com aumento de planejamento nos itinerários amenizaria o problema do trânsito no Centro – junto da expansão do metrô, o que é assunto para outro post.


A CENTRAL DO Brasil, na Avenida Presidente Vargas: um número alto de coletivos circula por esta via, que é uma das mais largas da cidade do Rio, com quatro pistas. Mesmo assim, o trânsito é caótico.


ZONA SUL
A área turística da cidade, a Zona Sul, conta com os melhores serviços de transporte da cidade, além do Centro, com ônibus modernos, limpos e menos poluentes, em alguns casos. Entretanto, o que a Zona Sul ganha em conforto, ela ganha em trânsito caótico e em excesso de linhas. Nesta região, encontram-se três grupos de itinerários circulantes: Zona Sul-Zona Sul (linhas que circulam entre os bairros da Zona Sul, administrada em maior parte pela empresa São Silvestre), Zona Sul-Centro (linhas que ligam os bairros desta zona ao Centro da cidade, na qual a Real Auto Ônibus tem o poder quase supremo sobre este trajeto) e Zona Sul-Zona Norte (linhas que ligam os bairros do Sul aos da Zona Norte, mais especificamente à região da Tijuca e de Vila Isabel e algumas poucas linhas que conectam ao subúrbio). A ligação entre as zonas Sul e Oeste é ainda precária, com exceção dos bairros da Barra e do Recreio.


A FALTA DE planejamentos nos itinerários, de forma a torná-los mais eficazes, ficam em segundo plano, contribuindo para o excesso de frota nas ruas e, na maior parte das vezes, sem passageiros, pois os itinerários são muito mal distribuídos. Na foto acima, a Avenida das Nações Unidas, em Botafogo, após uma batida de ônibus, em janeiro de 2010.


Espremida entre o mar e a montanha, a Zona Sul não conta com avenidas largas o suficiente para receber a quantidade de veículos que recebe. Os itinerários fazem o mesmo percurso praticamente, afinal, os acessos para sair da Zona Sul são poucos. Uma mesma linha que ligue o bairro do Leblon ao da Glória pode ser o mesmo que ligue o Leblon ao Centro, ou então, até mesmo, um que conecte o mesmo bairro à Zona Norte. Ainda no mesmo raciocínio, uma mesma linha de ônibus que ligue, por exemplo, Copacabana à Central do Brasil, pode ser feita por outras diversas linhas que ligam Copacabana à Zona Norte, via Avenida Presidente Vargas.

TIJUCA e ALTO DA BOA VISTA
Outra região bastante próxima do Centro que é muito bem servida de ônibus. Ainda que a malha de ruas/avenidas desta localidade seja mais expandida que a da Zona Sul, o trânsito caótico também impera nas principais vias de trânsito, como a Praça Saens Peña, ponto de partida de diversos coletivos para diferentes regiões da cidade. Uma das críticas ao sistema de ônibus da Tijuca é a semelhança entre os itinerários que conectam esta região à Zona Sul. Uma linha que conecte a Tijuca ao Leblon, por exemplo, percorre todo o Centro da cidade, Aterro do Flamengo, Copacabana e Ipanema. Uma linha que ligue a Tijuca à Gávea, percorre a Lapa, toda a Praia do Flamengo, Botafogo, Humaitá, Jardim Botânico e... ufa!, a Gávea. O Túnel Rebouças, principal eixo viário entre as zonas Sul e Norte, encontra-se em um bairro vizinho à Tijuca, podendo interligar tais trajetos em questão de minutos. Entretanto, não existe nenhuma linha regular que percorra toda a Rua Conde de Bonfim em direção à Zona Sul via Rebouças, que é logo ao lado.


A AUTO VIAÇÃO TIJUCA, mais conhecida como Tijuquinha, monopoliza as linhas de ônibus que circulam pelas estradas do Alto da Boa Vista, com serviços nem sempre satisfatórios. A frequência irregular das linhas deixa muitos moradores da Tijuca e do Alto na mão, pois são as únicas que conectam a região à Barra da Tijuca.


Em seguida, o problema dos ônibus no Grande Méier, Barra e Recreio, Jacarepaguá, Ilha do Governador, Subúrbio e Zona Oeste.

Fontes das fotos, por ordem de aparição:
1 - Disponível em Busologia do Rio. Acesso em 31/03/10, às 14h40.
2- Disponível em Extra. Acesso em 31/03/10, às 14h28.
3 - Disponível em O Dia. Acesso em 31/03/10, às 14h19.
4 - Disponível em Revista do Ônibus. Acesso em 31/03/10, às 14h50.

28.3.10

Rio & Geografia: Os ônibus (Parte 1/5)




O meu primeiro contato com o Rio, como integrante consciente deste meio, como carioca, como cidadão, foi, sem dúvida, nas primeiras vezes em que andei de ônibus pela cidade. Sozinho, lá pelo final dos anos 90. Com itinerários curtos, é claro, fui descobrindo as aventuras de ser quase um “dono-do-meu-próprio-nariz”, passando pelos primeiros perrengues rodoviários, incluindo lotações quase desumanas, ligeiros assaltos, engarrafamentos intermináveis e – principalmente – o erro de itinerário. Quem nunca pegou um “busão” errado? Minha paixão por ônibus cresceu daí, de todo esse meu precoce envolvimento com o meio urbano, sendo a oportunidade única de conhecer lugares da cidade com meus próprios olhos, pela janela destes dinossauros em movimento. A idade avançando, os conhecimentos se aprofundaram, aliados à experiência e às conclusões bastante óbvias foi que eu percebi: o sistema de transportes coletivo rodoviário do Rio é questionável. Carece de críticas.

Andar de ônibus é uma sensação estranhamente prazerosa para mim. Mesmo morando ao lado de uma estação do metrô (da linha 1, que é ainda mais prazeroso – ou seria menos doloroso?), muitas das vezes opto por me deslocar através dos ônibus. Gosto de saber os itinerários de cor, fazer cálculos mentais de qual coletivo se deslocará mais rapidamente para o local que desejo ir, faço um balanço de pós e contras entre uma linha e outra, e, desde então, venho acompanhando a evolução das linhas de ônibus pelo Rio e as dificuldades eternas dos veículos com seus percursos em uma cidade cercada por montanhas, favelas e de malha rodoviária deficiente – ruas estreitas e sobrecarregadas.


A EVOLUÇÃO DOS VEÍCULOS: de quadradões e com cara de antigos nas décadas de 80 e 90, novos modelos de ônibus surgiram na década de 2000, com formas mais sutis e design repaginado.


Lembro-me de, criança, andar em ônibus velhos, sujos, quadradões. Os veículos mais novinhos vinham aparecendo timidamente, com novas tecnologias, ruído abrandado. Mesmo assim, a entrada de passageiros ainda se dava pela porta de trás, lugar também aonde ficava o trocador. Em 2002, uma mudança na legislação fez com que todos os veículos estabelecessem o embarque pela porta da frente. A partir daí foi que os ônibus velhotes foram realmente dando adeus. Veículos com ar-condicionado aos montes, poltronas mais confortáveis, letreiros luminosos. A evolução. Assim como as tarifas: em março do ano de 2000, uma passagem de ônibus, linha regular, sem ar, custava R$ 0,90 centavos. Hoje, dez anos depois, pagamos por essa mesma tarifa R$ 2,35 – um aumento de quase 162%.


O GRÁFICO ACIMA expõe a evolução tarifária das linhas de ônibus entre 1º de julho de 1994 - data da implementação do Real - até os dias de hoje. Incrível pensar, mas até dez anos atrás um passe custava menos de 1 real!


Os ônibus são, sem dúvida, figurinhas muito cariocas. Referências da cidade, lugares de estórias, de polêmicas – quem nunca se questionou sobre a verdadeira cor dos ônibus da Transportes Vila Isabel, aquele abóbora (ou seria vermelho?). E aqueles amarelinhos, da Real Auto Ônibus, que circulam entre o Centro e a Zona Sul? São símbolos do Rio. Através dessas questões, crio aqui um especial para o blog As Ruas do Rio sobre esse famoso meio de transporte, suas conveniências e dificuldades. Espero que gostem!


SÍMBOLOS DO RIO: as frotas de veículos das empresas Real e Vila Isabel, respectivamente na foto acima, são umas das mais populares que circulam pelo Centro expandido do Rio.

18.3.10

Panoramas Rápidos (12) | Lagoa




COLADA À UM DOS MAIS belos cartões do Rio - a Lagoa Rodrigo de Freitas -, a Avenida Borges de Medeiros é um importante eixo viário da Zona Sul. A foto mostra o trecho da avenida nas proximidades do Túnel Rebouças. Congestionada, mas bela!

9.3.10

O drama do bairro de Noel

Imortalizada por Noel Rosa (foto ao lado, a estátua do compositor na Praça Maracanã), Vila Isabel é, de longe, um dos bairros mais tradicionais da cidade do Rio de Janeiro. Inundada por referências musicais e culturais cariocas, o bairro surgiu através do então empresário João Batista Viana Drummond, tornando-se Barão no futuro. Drummond dedicou à Princesa Isabel o grandioso lote de terras adquirido, por isso o nome. Com planejamento impecável, ruas em tabuleiro de xadrez, um bulevar com inspirações francesa, praças charmosas e o primeiro jardim zoológico da cidade, Vila Isabel tornou-se um dos bairros cariocas mais aprazíveis e nobres para se morar. Este título permaneceu por muitos anos, até que os problemas contemporâneos em função da descontrolada urbanização começou a afetá-la diretamente - eis a progressiva queda do império.


O PROJETO DO BAIRRO foi elaborado pelo Barão de Drummond, detentor das terras onde hoje se situa Vila Isabel.*


Localizada em uma importante região da Zona Norte do Rio, nos arredores do estádio do Maracanã, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e de parques florestais importantes, como a Reserva do Grajaú e a Floresta da Tijuca, Vila Isabel é, hoje, um bairro de classe média e média-baixa, que procura não afundar-se diante de tantas calamidades e de violência que a atinge. Cheguei a citar no último post que Vila Isabel foi um dos bairros que eu mais frequentei no meu início de adolescência, naqueles momentos em que os pais te permitem sair de casa sozinho. Diria que foi ali também onde surgiu todo esse meu interesse pela geografia e cultura da cidade. Consigo mentalizar muito bem o que era Vila Isabel há dez, doze anos atrás e o que é agora, e confesso: nunca vi nenhum outro lugar decair tanto como este em tão pouco tempo.


O BOULEVARD 28 DE SETEMBRO é o único logradouro do Rio de Janeiro com a designação de bulevar, projeto inspirado nas vias francesas que tanto influenciavam a vida carioca no passado. A avenida conta, ainda, com partituras estampadas nas pedras portuguesas de suas calçadas, em homenagem aos artistas do bairro, como Noel Rosa.


O luxo ficou no passado
Ruas charmosas, arquitetura imponente, árvores centenárias. As ruas de Vila Isabel vem sofrendo, cada vez mais, um processo de deterioração nunca antes visto. Os sobrados remanescentes do início do século XX estão caindo aos pedaços e, quando deveriam ser reaproveitados e restaurados, como preservação da memória cultural carioca, são ocupados por um tipo de comércio (popular) que as descaracteriza. A Rua Teodoro da Silva, importante ligação entre o Grajaú e o Maracanã, recebe diariamente um fluxo crescente de automóveis e ônibus, embora o número de árvores esteja cada vez mais decrescendo. Paisagem gris, contribuída com a ajuda das pichações que imperam a cidade. O Boulevard 28 de Setembro, majestuosa avenida, a única com designação de bulevar no Rio, também sofre com a imundície das calçadas musicais e com a descaracterização dos imóveis clássicos, transformados em comércio dos mais variados tipos. Não há charme que resista a um maltrato deste tipo. A Praça Barão de Drummond também encontra-se em estado nada glamuroso; antigo local de passeio, a praça nada mais é hoje como ponto final para as linhas de ônibus abóboras. O antigo jardim zoológico, chamado de Recanto do Trovador, importante parque da região, encontra-se às moscas e à mercê da violência.


IMPORTANTE VIA de trânsito de Vila Isabel, a Rua Teodoro da Silva (foto à esquerda) sofre com a falta de árvores, com o vandalismo e a falta de conservação dos imóveis. Já a Praça Barão de Drummond (foto à direita, com o Convento de N. Sra. da Conceição da Ajuda ao fundo), outrora aprazível, hoje está decadente e deficiente, afetada principalmente pela violência.


O mercado imobiliário
Por abrigar uma das favelas que mais tem estado na mídia por seu alto grau de instabilidade, o Morro dos Macacos, os imóveis da região sofrem com a desvalorização em função da violência. A Rua Visconde de Santa Isabel, uma das mais afetadas, abriga prédios de classe média e média-alta, mas que sofrem com os tiroteios provenientes do morro. As placas de "Vende-se" são muitas, embora poucos consigam vender seus imóveis. E se conseguem, é por preços aquém do desejado. De acordo com o site da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (ADEMI), um apartamento quarto-sala na Visconde de Santa Isabel está sendo vendido, em média, por R$ 77 mil reais enquanto na Rua Teodoro da Silva, afastada do morro e da linha de tiro, o preço sobe para R$ 160 a R$ 180 mil reais - mais que o dobro, para se ter noção de tal discrepância. Uma das possibilidades para que este quadro se reverta (ou estabilize) seria a ocupação das UPPs - polícia pacificadora - nos morros do bairro.


A RUA LUIZ BARBOSA no encontro com o Boulevard 28 de Setembro e a Praça Barão de Drummond e parte da favela do Morro dos Macacos, ao fundo.


Comércio e serviços
Em 1996, o Shopping Iguatemi chegou a Vila Isabel, no antigo estádio do América Football Club, na esquina das ruas Teodoro da Silva e Barão de São Francisco. Mais conhecido por suas lojas caras e sofisticadas, o Iguatemi foi inaugurado ali como forma de atender a um público que ainda não contava com um centro comercial daquele porte. Até então, o alto poder aquisitivo dos moradores de Vila Isabel, Grajaú, Tijuca e Maracanã foi bastante apreciado pelo Iguatemi até que, em decorrência dos problemas já relatados, a procura por lojas elegantes foi deixada de lado. Quem pôde sair de Vila Isabel, começou a sair, e o shopping passou a se adequar ao novo público-alvo: as classes média e média-baixa. Supermercados como o Pão de Açúcar e joalherias como a H. Stern se retiraram e deram lugar às lojas populares como as Casas Bahia, Ricardo Eletro, Renner, entre outras.

Atualmente
O que resta hoje à Vila Isabel e à sua famosidade é o Carnaval. A GRES Unidos de Vila Isabel (à direita) tem se destacado no Grupo Especial da escolas de samba do carnaval, após um longo período no Grupo de Acesso. Ter sido o berço de diversos compositores e poetas, ou o lugar onde eles se revelaram, ainda mantém a imagem de Vila Isabel como um bairro boêmio e musical. Os botecos, marca registrada do bairro, continuam salpicando de esquina em esquina, porém, como nada na vida é somente festa, a Vila merece um tratamento mais adequado. Tratamento não só para coibir a desordem urbana, mas também para valorizá-la diante de sua grandiosa importância para a cultura do Rio. Tratamento para reembelezá-la e reelevar a auto-estima de seus moradores, que tanto a amam. Tratamento para que a população marginalizada possa viver em paz, com decência, sem ataques violentos nem tiros. Tratamento para que todos vivam em harmonia, favela e asfalto, ruas e limpeza, lixo e lixeira. Vila Isabel é um patrimônio, salvá-la é nosso dever!

*Fonte:
ABREU, Maurício de A. A evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPP, 2008, p. 46.