25.4.11

Avenida Rainha Elisabeth: a rua que é pomposa até no nome

Na Avenida Rainha Elisabeth, tudo é pomposo: desde o seu nome até os edifícios e casas levantados por lá, incluindo aí a sua nobre localização, entre Copacabana e Ipanema, bem pertinho do Arpoador, na Zona Sul da cidade. Vale lembrar que ela é do início ao fim protegida pela orla - começa na Praia de Copacabana terminando na de Ipanema. Privilegiada, não?

Mapa da rua fotografada e o seu entorno, na Zona Sul do Rio

Mas não só de pompa ela vive. A Rainha Elisabeth (a avenida, e não a rainha!) também provoca sensações de alívio no dia-a-dia, principalmente para quem se direciona para Ipanema e Leblon nos dias úteis, bem na hora do rush. Tudo bem que com o BRS da Barata Ribeiro e Raul Pompéia o trânsito vem melhorando na região, o que não impediu de apagar da memória o sufoco que era pegar todo o caos da Barata Ribeiro às seis e tanta da tarde e o alívio provocado ao ver o seu ônibus (ou carro) conseguir entrar à direita, na Rainha Elisabeth. Significa "escape", "reestruturação da paciência", "fim do estresse", entre outras formas de expressão.

O cruzamento com a Raul Pompéia
Tanto é uma avenida de passagem entre duas regiões que muitos nem percebem com detalhes os seus monumentais edifícios e jardins. Até porque muitos pedestres preferem fazer a conexão Copa-Ipanema através da Rua Francisco Otaviano, restando à Avenida Rainha Elisabeth o fluxo de automóveis e moradores. Não exatamente só de moradores; por ali circulam muitos gringos, arrastando suas malas pelas calçadas de pedras portuguesas, enquanto outros entram e saem do restaurante Broth, quase na esquina com a Canning, já no território ipanemense. É fácil identificá-los como gringos simplesmente pela quase ausência de cor de pele, se não fosse pelo vermelho do sol. Aliás, os gringos são uma marca de Ipanema. Não há como pensar em Ipanema sem não associá-los. Copacabana hoje é menos "gringa" e mais turística. Isto é, engloba mais turistas de outras áreas do planeta que não sejam loiros-de-olhos-azuis do que a vizinha Ipanema.

Vista lateral do edifício Acary, localizado no Largo do Poeta

O charmoso edifício Oliveira
A Rainha Elisabeth é representantíssima do estilo art déco, entre outros edifícios maravilhosos dos Anos Dourados. Escadarias com corrimão de bronze, portarias luxuosas, mosaicos, venezianas... Encontra-se de tudo do que há de mais simpático na cidade, o que a torna um dos meus logradouros favoritos. O nome dos edifícios são fáceis de serem guardados, pela simplicidade e por, em geral, remeterem à algo histórico: Aquidabã, Piratininga, Rio Verde, Marcio, Itayã... O Acary é meu preferido, enquanto o Oliveira, no número 601, destoa totalmente dos demais. O Guia de Arquitetura Art Déco no Rio de Janeiro, organizado pela Prefeitura (Editora Casa da Palavra, 3ª edição, 2001), descreve:

"Obra singela com características balneárias. Os compartimentos de canto, voltados para 45º para uma hoje encoberta paisagem, sugerem uma intenção de visão ampla do horizonte que só os mirantes proporcionam. (...) Os frágeis guarda-copos das varandas, desprovidas de parapeitos de alvenaria, inspiram-se nos decks e passadiços de arquitetura náutica".

O busto do Rei Alberto
da Bélgica
Na esquina com a Rua Conselheiro Lafayete, o que talvez seja a fronteira entre os dois bairros que hospedam a Avenida Rainha Elisabeth, está um simpático largo. É bem ajardinado, possui uma filial do badalado supermercado Zona Sul, e ainda conta com um busto do Rei Alberto I da Bélgica, que visitou o Rio junto de sua esposa, a Rainha Elisabeth, em 1920. No entanto, a antiga Rua Doutor Pires de Almeida só se transformou em Avenida com o nome da rainha dois anos depois, por decreto do então prefeito Carlos Sampaio (mais informações no blog Rio Curioso). Mesmo homenageando o Rei Alberto, o largo tem como referência é Carlos Drummond de Andrade. O Largo do Poeta foi inaugurado em 1990 e leva, em suas pedras portuguesas, algumas das frases mais célebres do poeta. Só para constar: é ali onde está o luxuoso edifício Acary, como vocês verão nas fotos. 


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Mesmo com toda a pompa, a avenida não consegue fugir dos terríveis cocôs de cachorro. É um mal que amedronta toda a cidade, de norte a sul. É impressionante! Andar por ali requer cuidado com a sola do sapato. Não me esqueço até hoje de uma inteligente placa instalada na pequena Rua Goethe, em Botafogo: "Recolha as fezes do seu cachorro. O animal é ele, não você!". Outra associação bastante original foi a dos moradores do Flamengo, em uma certa ocasião: "Cocô só Chanel". Apesar da bosta espalhada, algo passa a ser mais sufocante do que o citado odor: a vista da praia de Ipanema, com o Morro Dois Irmãos, chegando ao final da Rainha Elisabeth. Ok... Incluo aí também as meninas de biquini que passeiam pela Vieira Souto, em bicicleta ou a pé... Paisagem sufocante... Céus!...

22.4.11

O nosso Ibirapuera

Injustamente a Quinta da Boa Vista é conhecida (ou prejulgada) como "parque de pobre", "de suburbano", ou qualquer outro termo que refira à algo fora da moda e do sofisticado. Besteira das grandes! Como já havia dito, no Rio de Janeiro, a cultura do parque é pouco valorizada em função da praia, que aquece e refresca os corpos mais necessitados nos dias de calor que nos são comuns. Existe aquela coisa também do que "está fora da Zona Sul" não é bacana - é feio, pouco seguro e cafona. Se é assim que a classe formadora de opinião pensa, estão perdendo! A Quinta da Boa Vista é agradabilíssima, linda e relaxante.

Mapa do entorno do parque
Há tempos que não entrava lá. Logo na entrada, surpreendi-me ao ignorar a história do lugar contada em diversas placas ao longo de suas alamedas. Projetada pelo paisagista francês Auguste François Marie Glaziou (mais popular como Glaziou, como a rua de mesmo nome, em Pilares), o jardim da Quinta da Boa Vista é cheio de curvas sinuosas, altos e baixos, lagos - onde se pode remar e andar naqueles pedalinhos em formato de cisnes. Há também uma pequena, estreita e pitoresca ponte de madeira sobre um dos lagos, além de grutas artificiais. Um dos monumentos que mais se destacam na Quinta é o Pagode Chinês, construído em 1910 e restaurado há pouco tempo, em 2009, já na gestão do prefeito Eduardo Paes. O seu acesso se dá através de suaves degraus margeados por pedras. Era de fato o lugar mais disputado!

Devido ao desnível entre as alamedas, diversas famílias e grupos de amigos se esticavam em grandes toalhas e cangas pelos gramados - lotados de formigas, por sinal. Eu e Fernanda, que me acompanhava (e a quem agradeço pelas boas fotos!), fomos picados de leve, o que não nos tirou o humor. Sem nenhuma cerimônia, cestas, tupperwares e até panelas eram abertas por ali, dando início ao picnic bastante familiar. Acho que só fiz picnic uma vez na vida, em Paquetá, quando criança. Depois, nunca mais. Pelo o que vi pela Quinta, os visitantes adeptos a isto pareciam ter experiência, já que traziam quase a cozinha inteira de casa. Bom... era mais como forma de ajeitar tudo da melhor forma possível no final, sem deixar sujeira, do que simplesmente festejar ou causar balbúrdia. O ambiente é bem familiar, eu garanto!

Por trás do belo casario onde funciona o Museu Nacional, há uma alameda gastronômica bastante da popular e típica. São diversas carrocinhas de cachorro-quente, churrasquinho, doces e balas, entre outros sanduíches. Sem contar os isopores cheinhos de gelo e refrigerantes - nesse dia me resfresquei com um guaraná natural dos meus preferidos! Muitos artistas de rua se embrenhavam em meio aos brinquedos coloridos de plástico vendidos por simpáticos ambulantes, enquanto famílias inteiras pedavalam aqueles bicicletões típicos da Avenida Atlântica aos domingos. 

Contabilizando... passamos 3 horas e alguns minutos lá, assim, de bobeira, sem pensar na vida, curtindo, relaxados, o frescor de um lugar pouco divulgado e de tão fácil acesso. Fica a dica, meu amigo - a Quinta da Boa Vista é o nosso Ibirapuera. 

Quinta da Boa Vista
Entrada pela Rua General Herculano Gomes ou pela Avenida Rotary Internacional.
Metrô/Trem: Estação São Cristóvão.
Alguns dos ônibus que passam por ali ou perto (Radial Oeste): 434 (Grajaú-Leblon), 435 (Grajaú-Gávea), 436 (Grajaú-Leblon, Via Rebouças), 460 (São Cristóvão-Leblon), 461 (São Cristóvão-Ipanema), 463 (São Cristóvão-Copacabana), 232 (Praça Quinze-Lins), 247 (Camarista Méier-Passeio), 249 (Água Santa-Carioca), 254 (Praça Quinze-Madureira), 268 (Praça Quinze-Rio Centro), 284 (Praça Seca-Tiradentes), 665 (Saens Peña-Pavuna).

20.4.11

Duas perspectivas sobre o metrô carioca

Mostro-lhes a seguir dois materiais recentes sobre o tão criticado funcionamento do Metrô Rio, analisados sob óticas diferentes. O primeiro consiste no artigo "Problemas do metrô", publicado no jornal O Globo de 19 de abril de 2011, de autoria de Regis Fichtner, secretário-chefe da Casa Civil do Governo do Estado do Rio. Posteriormente, acompanhe a reportagem produzida pelo telejornal RJ-TV 1ª Edição, que deu oportunidade à uma comissão de deputados estaduais e promotores de fazer o percurso entre as estações Carioca a Pavuna. Eles encontraram passageiros viajando apertados, em vagões com temperatura de 30ºC. 

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Problemas no metrô, por Regis Fichtner (O Globo, página 6, 19/04/11)

O governo do estado decidiu solucionar os três principais problemas do metrô do Rio. O primeiro já foi resolvido: o fim da baldeação na estação Estácio, que resultou em maior comodidade e economia de tempo para os milhares de usuários da Linha Dois. O segundo já foi contratado: a aquisição de trens novos, o que não ocorria desde o início da operação do sistema metroviário. Quando chegarem, vão aumentar a oferta do serviço, dando maior conforto ao passageiro.

O terceiro é a expansão do sistema até a Barra da Tijuca, um sonho de todos os cariocas. Quando a Linha Quatro foi licitada, em 1998, o edital previu que ela iria do Jardim Oceânico até a Gávea, onde se ligaria com a Linha Um no local de melhor conexão, à escolha do vencedor. À epóca, a estação Arcoverde tinha acabado de ser inaugurada, motivo pelo qual a concessionária optou por fazer a interligação com a Linha Um através do Jardim Botânico até o Morro de São João, na metade do caminho entre Botafogo e Arcoverde, onde o passageiro teria que mudar de trem e pagar uma nova passagem - o que resultaria em uma tarifa de mais de R$ 10, certamente a maior do mundo.

Desde a licitação, passaram-se 12 anos. Ao assumirmos, o desafio de levar o metrô à Barra, buscamos atender a três premissas. A primeira, de fazer com que o passageiro possa viajar a qualquer outra estação pagando apenas uma passagem, no valor atual. A segunda, de fazer com que a ligação da Linha Quatro com a Linha Um seja feita na estação mais próxima, General Osório. A terceira, a de que o traçado seja elaborado levando em consideração o interesse do usuário. A previsão de carregamento pelo Jardim Botânico era de 120 mil passageiros/dia; a de Ipanema e Leblon é de mais de 240 mil passageiros/dia.

A ligação direta da Linha Quatro com a Linha Um se dará para evitar que os passageiros que se dirijam às estações além da General Osório tenham que fazer baldeação; para evitar que tenha que ser construído um centro de manutenção de trens às margens do Canal de Marapendi, causando danos estéticos a uma região privilegiada da cidade; e para dar maior flexibilidade ao sistema. A estação Gávea será construída e permitirá que futuros governos possam dar continuidade à expansão, fechando o anel do metrô, pelo Jardim Botânico.

A lógica do interesse do cidadão pautou as ações do governo. Teremos um metrô que passará por uma das regiões com maior problema de tráfego da cidade e que permitirá ao passageiro de Barra, São Conrado, Gávea, Leblon e Ipanema viajar para qualquer outra estação da cidade, sem a necessidade de baldeação, com uma tarifa única. Com o Bilhete Único, poderá ainda viajar em outro modal para outras partes da Região Metropolitana por apenas R$ 4,40. Que outro governo terá feito tantos investimentos em tão pouco tempo, com tantos benefícios ao cidadão?
Assista a reportagem produzida pela TV Globo para os noticiários locais a respeito do sufoco ao qual os passageiros são submetidos nos dias úteis.

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Meus comentários...
1) "O primeiro já foi resolvido: o fim da baldeação na estação Estácio, que resultou em maior comodidade e economia de tempo para os milhares de usuários da Linha Dois." Acabou mesmo? Nos fins de semana e feriados a baldeação volta a ser feita na estação Estácio. Se a Linha 1A é tão boa e eficiente, por que não foi mantida fora dos dias úteis? Vale lembrar que a estação Cidade Nova já foi inaugurada. Antes alegava-se que para agilizar as obras da estação, seria mais prudente interromper a Linha 1A. 

2) "(...) A primeira, de fazer com que o passageiro possa viajar a qualquer outra estação pagando apenas uma passagem, no valor atual." e mais adiante "(...)Linha Um através do Jardim Botânico até o Morro de São João, na metade do caminho entre Botafogo e Arcoverde, onde o passageiro teria que mudar de trem e pagar uma nova passagem - o que resultaria em uma tarifa de mais de R$ 10, certamente a maior do mundo" A minha lógica é que serviços padronizados tenham o mesmo valor, principalmente no tocante ao transporte público. Os ônibus têm sua própria tarifa, as barcas idem, assim como os trens. Logo, não faz sentido uma determinada linha de metrô custar mais caro ao passageiro e/ou simplesmente não possibilitar a transferência gratuita entre as linhas que a cruzam. O serviço deve ser padronizado e integrado. Se as entrelinhas do contrato prejudicariam o  lucro do Metrô Rio na construção da original Linha Quatro, não é o passageiro que deve sair lesado pagando mais caro, mas sim o Estado que deve intervir nessa situação até achar um ponto satisfatório para ambas as partes. 

3) "A previsão de carregamento pelo Jardim Botânico era de 120 mil passageiros/dia; a de Ipanema e Leblon é de mais de 240 mil passageiros/dia.(...) A ligação direta da Linha Quatro com a Linha Um se dará para evitar que os passageiros que se dirijam às estações além da General Osório tenham que fazer baldeação (...);" É interessante ressaltar que essa média de 240 mil passageiros/dia no trecho por Leblon e Ipanema se junta à média  diária monstruosa de passageiros que circulam pela já hiperlotada Linha Um. Incluir mais gente à este sistema é uma imprudência, uma falta de respeito com o cliente. Os trens já saem lotados das estações terminais e só entopem ainda mais conforme avançam os trilhos. Abortar a construção de uma nova linha em função da facilidade de se prolongar uma já existente - e que, por sinal, já é bem extensa - é bastante discutível. Não deveria ser tolerado, meus amigos.  

4) " (...) para evitar que tenha que ser construído um centro de manutenção de trens às margens do Canal de Marapendi, causando danos estéticos a uma região privilegiada da cidade; Argumento pouco persuasivo. E mesmo que tivesse algum fundamento, demonstra o total descaso (ou preconceito) do Estado e do Metrô Rio com outras áreas da cidade, que sofreram verdadeiros danos estéticos com a intervenção deles. Exemplo? A Cidade Nova. Quem acha bonita aquela passarela abóbora da Presidente Vargas e o arco que passa sobre a Francisco Bicalho? 

5) "(...) e para dar maior flexibilidade ao sistema." Flexibilidade aonde? Pelo contrário, você fica mais inflexível. As três futuras linhas do metrô serão contínuas, é como se fosse um "linhão" com diferentes nomes de acordo com o trecho. Só vale como exceção o encontro da Linha Dois com a Um na Central, pois o passageiro tem a opção de seguir para dois diferentes sentidos. Levando em conta o diminuto trecho entre as estações Saens Peña e Central, a ideia de que o metrô carioca é um "linhão" pode persistir. 

6) "A lógica do interesse do cidadão pautou as ações do governo." Gostaria de ver dados científicos à respeito da preferência da população. Quem visita os fóruns de internet sabe que a grande maioria desaprova a decisão do governo de fazer a Linha Quatro por Ipanema e Leblon. Quem mora no eixo Gávea-Botafogo também é contra. Até quem não é morador e trabalha nessa região agradeceria a iniciativa. A construção da linha original pode não atender ao tanto de gente que eles querem desatender, mas é uma medida fundamental para melhorar o trânsito entre o Centro e a Barra, principalmente dentro da Zona Sul. 

7) "Que outro governo terá feito tantos investimentos em tão pouco tempo, com tantos benefícios ao cidadão?" Entendi o contexto da frase. Insere-nos num panorama onde nenhum governo faz nada, e o autor quis enfatizar justamente que o que ele participa, sim, faz. Entretanto, isso não é motivo para autoglorificações. Tais investimentos nada mais são do que parte do conjunto de obrigações do Estado, e não favores para os cidadãos. 
 

18.4.11

À beira da Quinta

Um especial sobre o conjunto de ruas que vêm ganhando novíssimos empreendimentos imobiliários e mudando a cara da região que já foi a mais nobre do Rio

Mapa do entorno da Quinta da
Boa Vista, na Zona Norte do Rio.
Em uma manhã ensolorada de domingo, supõe-se que todos os cariocas estejam se dirigindo para as praias ao sul da cidade. Certo? Errado! Pela passarela que interliga a Avenida Radial Oeste e São Cristóvão passavam dezenas de pessoas recém-desembarcadas do metrô e do trem em direção à Quinta da Boa Vista, parque que eu não visitava há mais de uma década. Lembro-me com carinho dos passeios da escola ao Jardim Zoológico e aos picnics no gramado da Quinta. No entanto, antes de revisitá-la, fiz um recorrido a pé pela avenida que margeia o parque onde morava o imperador.

 Muitas pessoas desembarcam nas estações São Cristóvão do metrô e do trem para aproveitar o dia na Quinta da Boa Vista.

Antes de mais nada, é preciso informar aos navegantes que andar a pé por ali só vale a pena se for em um dia como esse, de grande movimento pelo parque e com a luz do sol, de preferência. Basta cair a noite para que a Quinta da Boa Vista mergulhe na escuridão ainda mais fortalecida pela quantidade de árvores e folhas centenárias de São Cristóvão. Sem esquecer de que é no período da noite o momento menos charmoso da Quinta, já que se converte em zona de prostituição e de alguns meliantes. Um defeito contínuo, que pode ser remediado com a implantação de eficientes políticas públicas.

Mesmo assim, recomendo um passeio por ali - ainda que seja de carro., se você preferir. Até porque, como já relatei no post anterior, existe um movimento de recuperação de São Cristóvão e as avenidas Rotary Internacional e General Herculano Gomes prometem ser as maiores beneficiadas. Afinal, morar de frente para um espaço verde como a Quinta é sinônimo de status em outros lugares... Menos no Rio, que tem a praia como carro-chefe (e quase único) no que tange aos espaços de lazer, em detrimento dos grandes espaços verdes urbanos. 

 O início da Rua General Herculano Gomes em dois momentos: defronte para a passarela que liga a Radial Oeste e, na outra, já com o Hospital Quinta D'or, na Rua Almirante Baltazar.

O início da Rua General Herculano Gomes é bem confuso, principalmente em função do formigueiro humano que transita entre o parque, o metrô e o trem, logo ali. Um ponto final de ônibus de linhas que vão para Copacabana e Leblon, todos daqueles amarelinhos, também contribui com a desordem. A entrada da Quinta também é caótica nos dias de domingo, embora seguir pela General Herculano Gomes em direção ao Campo de São Cristóvão seja bem mais tranquilo. Poucos pedestres, é claro, e muitos automóveis procurando onde estacionar.

 A Rua General Herculano Gomes lembra um pouco a Avenida República do Líbano, em São Paulo, que é a que circunda ao norte o Parque do Ibirapuera.

A placa indica praça
na rotatória
Quem conhece São Paulo e consegue identificar suas particularidades, diria que a Rua General Herculano Gomes é um exemplo paulistano dentro do Rio. Larga, duas pistas e canteiro central, parece de fato uma daquelas ruas paulistanas, principalmente a que circunda o Parque do Ibirapuera. Árvores gigantescas que se alinham às outras árvores no interior do parque, promovendo um grande telhado de folhas e galhos. Há, inclusive, um certo desnível entre uma pista e a outra, tendo o canteiro central um pequeno aclive todo cheio de grama. É muito bonito - e poderia ser ainda mais se fosse menos mal amado.

Surgimento de
novos prédios
De prédios e casas, a General Herculano Gomes é bem pobre. Pobre no sentido de que não há muita coisa construída (a não ser galpões abandonados), o que nos impede de ver e admirar, situação que está mudando com a construção de novos condomínios. Espaço é o que não falta. Há pelo menos dois novos condomínios em construção, já levantados e no esqueleto, com previsão de entrega para o final de 2011, perto já da Avenida Pedro II. Mais para o início da rua, está o Hospital Quinta D'or, inaugurado em 2001. Talvez ele que tenha recuperado um pouco a lembrança de que, sim, existe um parque do porte como o da Quinta da Boa Vista aqui no Rio de Janeiro. Para os portadores de plano de saúde, o hospital é referência e atrai pacientes de todos os cantos da cidade.

 A chegada à praça rotatória, onde está o antigo portão do parque. Ali é a confluência das avenidas Pedro II e Rotary Internacional e da Rua General Herculano Gomes.

A mureta do Museu Conde
de Linhares
Acho que o grande barato do lado de fora da Quinta é quando se chega à união da Rua General Herculano Gomes com as avenidas Pedro II e Rotary Internacional. É ali, numa praça rotatória, onde está o antigo e formosíssimo portão da Quinta da Boa Vista, mantido intacto após intervenções viárias na região. Esse, na minha opinião, é um dos locais da cidade de que eu mais gosto. Acho muito bonito esse portão e o seu entorno, de trânsito  carregado devido à confluência das três avenidas citadas.

 O panorama da Rua General Herculano Gomes, vista da praça onde está o antigo e intacto portão da Quinta da Boa Vista.

Já quando a Herculano Gomes se transforma em Avenida Rotary Internacional é que aparecem os primeiros condomínios já construídos da região. Na verdade, o endereço oficial do condomínio Paço Real, por exemplo, é o da rua detrás, Euclides da Cunha 255. Uma série de lançamentos imobiliários pretende mudar a cara dessa parte do bairro, tornando-o mais agradável e familiar. Se depender dos números dos novos empreendimentos, é bem capaz que o tenebroso panorama que assolou a Quinta esteja mudando sim. Aliás, eu espero que sim, porque é uma área nobre sob todos os pontos de vista, principalmente o histórico. É preciso recuperá-la! 


 O condomínio Paço Real, pioneiro na região, e os seus jardins na Avenida Rotary Internacional. 

A minha caminhada terminou bem na esquina com a Rua do Parque. Não segui até o final da Rotary Internacional porque estava ansioso para curtir as belezas do interior da Quinta. Por lá estava bem divertido... vocês verão na próxima postagem! Um abraço! 

 Fim do percurso, próximo à Rua do Parque. Encontrem-me agora dentro da Quinta! Acompanhem! 
 

17.4.11

A redescoberta de São Cristóvão como lugar para viver

"Tá ficando muito caro para morar aqui no Rio", disse uma jovem recém-empossada executiva de uma prestigiada empresa pública nos arredores do Largo da Carioca para o amigo, colega de profissão.

"Pois é, eu estou de aluguel lá em Copacabana, mas consegui comprar na Tijuca. Vou me mudar na semana que vem", respondeu ele, aparentando sutilmente ser de fora do Rio em função do sotaque meio apaulistado.

"Ih, mas até a Tijuca já está caro! Eu vou fazer que nem um conhecido meu, que acabou de comprar na planta um apartamento em um condomínio novinho na Quinta da Boa Vista. Foi onde ele pôde pagar", complementou ela, com ares meio capixabas. Não sei se acertei, só tenho a certeza de que os dois eram "estrangeiros".

"Onde fica isso?", contestou o rapaz, na faixa dos 30 anos.

"Bem ao lado do Maracanã e da estação São Cristóvão do metrô. O problema é que esse metrô vive cheio..."...

A conversa acima foi captada por mim, sem-querer-querendo, enquanto me dirigia ao metrô na última sexta-feira por volta das 18 horas. Costumo escutar muitas conversas aleatórias por aí, só que geralmente eu as esqueço em questão de minutos. Essa, no entanto, fez-me refletir ainda mais sobre esse assunto da moda que eu venho discutindo aqui no blog: o alto custo de morar no Rio.

Quinta da Boa Vista: o charmoso
parque foi residência do imperador
Acho bem interessante como esse surto nos preços de imóveis e serviços tem provocado uma mudança no comportamento do carioca e dos não-cariocas, aos montes por aí devido às numerosas aprovações em concursos públicos para órgãos e empresas públicas instaladas na cidade. Mais do que isso, considero essa mudança de comportamento mais relacionada às pessoas mais jovens, dando iniciando à "vida adulta", e em um menor grau aos mais velhos, que são mais conservadores e já possuem uma vida mais estabilizada. 

Se até poucos anos atrás jovens bem sucedidos como esses aproveitavam a estabilidade financeira para investir nos preços moderados de quarto-sala na Zona Sul, hoje o panorama já não é mais assim. A procura por qualidade de vida é incessante, sem dúvidas, embora eu acredite que gastar uma simbólica parte do salário para morar em microapartamentos perto da Orla não está sendo mais grande vantagem. Bom... vantagem sempre é, não podemos negar; mas que a situação atual do mercado imobiliário acarreta migrações quase forçadas, isso sim ninguém pode negar. 

O ponto principal é que, se anteriormente a compra de imóveis nas áreas mais badaladas da cidade já era impensável, o aluguel figurava ser uma maneira de escapatória para as espantosas cifras dos classificados. Agora, no momento em que vivemos, até o aluguel já se mostra impraticável. 

Então... qual direção seguir?

São Cristóvão e seu entorno
Não é a maioria dos casos, mas sinto que há um movimento de procura em áreas estratégicas e pouco visadas. Um exemplo ainda tímido e que servirá de tema para as próximas postagens é o de São Cristóvão. Bairro da nobreza, sede da residência imperial e dona de uma história invejada, a região vive em decadência há muitos anos. São Cristóvão fica ao lado do Centro e da Rodoviária, é passagem quase obrigatória para o Aeroporto Internacional e Ilha do Fundão, está ao lado do Maracanã e do Túnel Rebouças, e ainda conta com uma estação de metrô e outra de trem, com conexão para os diferentes (embora arcaicos) ramais da Supervia. 

No fim da década passada, empresas como a RJZ Engenharia, Cyrela e Concal resolveram investir na construção de um condomínio, o Paço Real, de apartamentos voltados para a classe média da Zona Norte numa avenida pra lá de morta: os arredores da Quinta da Boa Vista, esplendoroso parque onde morou o Imperador D. Pedro II, local hoje do Jardim Zoológico e do Museu Nacional. Eu e meus pais pensávamos que aquele investimento seria um fracasso. Ledo engano... todas as unidades foram vendidíssimas.

Inclusive tive a coincidência de pessoas que fazem parte da minha rotina terem adquirido um imóvel por ali. No final das contas, o empreendimento tornou-se atrativo, na verdade, para o pessoal classe média da Zona Sul, que vivia de aluguel, sem condições de bancar um apartamento próprio por lá. Se não me esqueço, o condomínio Paço Real oferecia apartamentos de 2 a 3 quartos, custando entre R$ 150 mil a 300 mil reais, facilidade no crédito, piscina, churrasqueira, playground... 

Pavilhão de São Cristóvão, em desenho.
© FAPERJ
Outros empreendimentos imobiliários pretendem aquecer o setor imobiliário da Quinta da Boa Vista. Alinhado à isso, projetos da prefeitura têm estimulado a revitalização de São Cristóvão, que já é conhecido como o novo polo da moda: são mais de 65 fábricas das melhores grifes instaladas nos bairros mais ricos, como a XSite, Armadillo, Osklen, Farm e Leeloo. Já do ponto de vista histórico, São Cristóvão conta com inúmeras atrações turísticas pouco exploradas por turistas e moradores, entra elas, quatro museus: o Nacional da UFRJ, o Militar Conde de Linhares, o do Primeiro Reinado e o de Astronomia. Não posso esquecer de mencionar o divertido Centro de Tradições Nordestinas (vulgo "Feira dos Paraíbas"), no Campo de São Cristóvão.

Na próxima postagem eu falarei mais detalhadamente sobre os arredores da Quinta da Boa Vista - e a própria - em fotos tiradas hoje, domingo de manhã. 

Leia mais sobre:
Site do condomínio Paço Real, localizado em frente à Quinta da Boa Vista: http://www.pacoreal.com.br .


16.4.11

Rio nos Anos Dourados + Art Déco bem ali, na Cinelândia

Av. Delfim Moreira, no Leblon, em 1960: lembra um pouco
Piratininga, em Niterói. Essa foto faz parte da exposição!

A dica vai para quem trabalha durante a semana no Centro, ou até mesmo para quem não trabalha e está sempre por lá, ou, também, para aqueles que se interessarem: desde o último 6 de abril, o excelente Centro Cultural Justiça Federal está com a exposição "Memórias da Cidade - Anos 1950 e 1960". Ela é toda baseada no acervo de fotografias da Agência O Globo, ocupando duas salas no primeiro andar do prédio. Todas as fotos são muito interessantes, mostrando bem a rotina do carioca nos Anos Dourados e o detalhes das ruas e praças, assim como da moda e do comportamento.

Apesar de ter curtido bastante a exposição, fiquei um pouco decepcionado por mais uma vez ter visto apenas fotos de regiões como a do Centro e a de Copacabana. Qualquer exposição ou livro que haja sobre o Rio Antigo, os organizadores insistem nesse clichê de só mostrar o Centro e partes da Zona Sul. Mas... tudo bem, perdoados! Posso compreender que não exista tanto material disponível de outras áreas, embora torça para ver, em uma outra oportunidade, fotografias da mesma época de Santa Teresa, Rio Comprido, Tijuca, São Cristóvão, dos subúrbios, e até mesmo da Lagoa com a favela da Catacumba ali na Avenida Epitácio Pessoa. E só duas observações: 1) a exposição é bem enxuta, vê-se tudo em menos de vinte minutos; 2) o folheto oficial da mostra traz todas as imagens impressas! Coisa para colecionador!

Mais uma informação... No mesmo lugar, dia 27 de abril, quarta-feira, acontecerá uma palestra ministrada pelo professor de História da Arte Carlos Medeiros sobre a presença art déco na arquitetura carioca, nas décadas de 30 e 40. Inclui-se aí projeção de vídeo das imagens de bens representativos do estilo em lugares específicos da cidade. As vagas são limitadas. 


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"Memórias da Cidade", de 06.04.2011 a 22.05.11
Onde: Centro Cultural Justiça Federal
Endereço: Avenida Rio Branco 241 (estação Cinelândia do metrô) | Centro | CEP 20040-009
Horário: Terça a domingo, das 12h às 19h. Entrada franca.
Telefone: 0xx21 3261.2550

"A representatividade do acervo arquitetônico Art Déco na cidade do Rio de Janeiro" (palestra)
Quando: 27.04.11, quarta-feira
Informações: 0xx21 3261.2553
Vagas limitadas!

8.4.11

O perfil dos bairros valorizados na corrida imobiliária

Continuando o assunto da postagem anterior, sobre a alta no preço dos imóveis na cidade do Rio, eu tracei o perfil dos bairros que mais estão se valorizando. Todos eles fazem parte do chamado "núcleo" da cidade, o que consistindo, mais exclusivamente, nos bairros cariocas tipicamente tradicionais. E, ah, antes de prosseguir, só queria ressaltar que as informações da lista a seguir não têm nenhum embasamento científico - é apenas uma visão pessoal em relação ao que está acontecendo! E, por favor!, critiquem, argumentem, complementem... vai ser interessante analisar dessa forma com a ajuda de vocês! :-) 

 O gráfico expõe dados oferecidos pela Secovi-Rio para o mês de março - com exceção de Vila Isabel, onde consegui os dados diretamente no site do sindicato. Para mais informações de números, o caderno Morar Bem (O Globo) de domingo publica a tabela completa. Acho que o Jornal O Dia também, se não me engano.


Ipanema e Leblon
Valorização ao final de 2010: 79,36 e 59,23%, para três quartos 
Caro leitor, se você faz parte da chamada classe média e quer morar nessa simpática e badalada faixa de terra entre o oceano e a Lagoa, eu diria que o seu tempo já passou! Nos dias de hoje, a classe média do Leblon e de Ipanema são moradores das antigas, que nasceram ou herdaram apartamento por lá, ou então já moram há tanto tempo de aluguel no mesmo lugar que isso não pesa mais no bolso. Para infiltrar-se nesta restrita comunidade, é preciso ser bem-sucedido e ter uma conta bancária bastante da polpuda. No mínimo classe média-alta. Os apartamentos, pelo menos no Leblon, já passam do valor de R$ 1 milhão. E olha que são dos mais baratos... A questão é que o mercado imobiliário anda explosivo por essas bandas, embora eu acredite que Ipanema ainda ofereça algumas "barganhas" nos arredores da Praça General Osório.

Copacabana
Valorização ao final de 2010: 60,91%, para três quartos 
Até meados dos anos 90, Copacabana ainda era referência de bairro chique da Zona Sul. A instabilidade da economia e o surto de violência na cidade marcou decisivamente na transformação da Princesinha do Mar em bairro mais popular. Muita família de grana daquela região foi perdendo o status e, como consequência, seus belíssimos apartamentos em edifícios art déco foram decaindo e ficando fora de moda, uma coisa bem "casa da vovó". Somando-se aos apartamentos em mau estado de conservação, temos os conjugados e outros apertamentos que, na maioria das vezes, também precisam de obra. Pois bem, acho que até uns cinco anos atrás o perfil dos novos moradores de Copa se encaixaria no eclético. Em 2011, ele estaria mais para a categoria dos "corajosos e determinados", pois o preço por lá anda nas alturas: uma média de R$ 858.230 mil por um apartamento de 3 quartos, que às vezes, como já relatado, nem está tão bem conservado para custar isso. Entretanto, Copacabana é um bairro prático, útil... tem de tudo por lá. É uma boa opção para quem é desencanado e com um dinheirinho marromeno disponível para uso.

A localização no mapa dos bairros mais valorizados ao final de 2010. Observe que, diferentemente de outras épocas, tais bairros são os que ficam ao redor do Centro, e não mais os afastados, como a Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes e Vila da Penha, na última década.

Botafogo
Valorização ao final de 2010: dado indisponível até a postagem
Botafogo era o típico bairro de passagem que ganhou notoriedade na última década por contar com um grande número de shoppings, cinemas e bons colégios. Qualquer terreno ocioso ou imóvel velho que existisse no bairro transformou-se em grandes prédios modernos, desses com playground, piscina, academia... a Rua da Passagem é um exemplo. A proximidade com o Centro e a inúmera oferta de serviços de qualidade favoreceu a ida de jovens recém-empregados para lá, muitos casados e provenientes de bairros outros bairros mais caros da Zona Sul em busca de melhores preços. Botafogo tem valorizado tanto o seu mercado imobiliário que hoje em dia compete bastante com os valores praticados por Copacabana. Porém, assim como Copa, tem muito apartamento velho e pequeno por lá à preço de cobertura no Recreio dos Bandeirantes. É o caso também do bairro vizinho, Flamengo. Um adendo: a vantagem do bairro nos seus lançamentos imobiliários tem sido a oportunidade do morador comprar na planta e ir pagando em prestações. Acontece muito disso por lá!

Centro
Valorização ao final de 2010: 90,24%, para 1 quarto
Centro é sempre Centro: de dia é movimentado e, à noite, um Deus nos acuda. Dificilmente alguém escolheria morar no Centro do Rio; a coisa começou a mudar um pouco mais recentemente, com a estabilização da Lapa como ponto turístico da cidade e de boemia. O Bairro de Fátima, parte mais residencial da região, ganhou no fim da última década o Cores da Lapa, um condomínio nos moldes dos que existem na Barra da Tijuca bem na Rua do Riachuelo. Resultado: disputado quase a tapas, todos os apartamentos foram vendidos em questão de horas. Acho que a grande vantagem do Centro, e até mesmo o motivo de sua valorização crescente, é a já infra-estrutura oferecida e a boa localização, entre as zonas Norte e Sul. A região só tem a crescer, ainda mais com a recuperação da Zona Portuária.

Tijuca
Valorização ao final de 2010: 56,36%, para três quartos 
Berço da classe média carioca, a Tijuca foi um dos bairros mais badalados do Rio, desde antes da descoberta de Copa, Ipanema e Leblon, até poucas décadas atrás. Foi a partir dos anos 80 que o bairro começou a ver os seus morros verdes transformarem-se, de forma acelerada, em favelas. Com o império da violência em detrimento de uma presença maior do Estado, os cinemas de rua foram embora, assim como as famílias mais abastadas. De legado, só restou à Tijuca muitos dos seus bons edifícios e muitas ruas e praças bucólicas. Com boa infra-estrutura e inchado comércio, o bairro conta com 3 estações de metrô da Linha 1 - a quarta será inaugurada em 2013 -, e ainda é vizinho ao Centro e próximo à Zona Sul, através do Túnel Rebouças. Tais qualidades adormecidas têm despertado o efeito contrário àqueles que decidiram abandonar a região no passado, devido ao elevado custo de vida na Zona Sul (e até mesmo na Barra) e o resgate da qualidade de vida neste trecho da Zona Norte com a pacificação dos morros no entorno.

Vila Isabel
Valorização ao final de 2010: 70,21%, para 1 quarto.
A reportagem do Morar Bem (03/04) mostra Vila Isabel como um dos bairros que mais se valorizaram. Nesse caso, eu não vejo esse efeito relacionado totalmente ao aumento da procura, mas sim algo relacionado ao "valor real" dos imóveis, se é que posso chamar assim. Vila Isabel foi um dos lugares mais castigados nesta área de bairros mais centrais devido à presença das facções criminosas das favelas ao redor, como a do Morro dos Macacos. Apartamentos de classe-média da Rua Visconde de Santa Isabel, por exemplo, que fica às margens do morro, estavam sendo vendidos por menos de R$ 100 mil. Com a pacificação, os valores voltaram para o seu "valor real", isto é, para o valor que, de fato, custa o imóvel. Acredito eu que essas sejam as razões para a valorização. Esse mesmo processo aconteceu também em outros bairros da cidade, no caso de ruas próximas às favelas e que apartamentos eram vendidos por preços bem inferiores aos do resto do bairro em que se inseria. Exemplos: as ruas da Usina, na Tijuca; ruas Barão da Torre, Jangadeiros e Alberto de Campos, em Ipanema; ruas Sá Ferreira e Souza Lima, em Copacabana; ruas Barão de Macaúbas e Marechal Francisco de Moura, em Botafogo.

4.4.11

O assunto da moda: morar no Rio

Apartamento de 3 quartos
por menos de R$ 1 milhão no
Leblon é coisa do passado
Ultimamente a mídia e as pessoas só falam nisso, de como andam caras as coisas no Rio, principalmente em relação à moradia. Aluguéis que sobem assustadoramente, a inconstância no valor dos apartamentos, que podem duplicar em questão de semanas. Sem esquecer de citar o reajuste na tarifa do metrô e do ônibus, para R$ 3,10 e, o outro, para R$ 2,60 num futuro breve. Venho acompanhando a saga de amigos da faculdade que moram sozinhos em república na região de Botafogo e se vêem desesperados por não poderem arcar com os novos custos. Em um outro exemplo, vejo meu primo, que está saindo da casa dos pais e procura pelo seu primeiro apartamento. Nascido e criado na Zona Sul, já considera a remota hipótese de se mudar para o Centro ou para a Zona Norte em função dos absurdos preços cobrados por conjugados em Copacabana e adjacências.

Na reportagem da Veja Rio de 30/03/11, foi publicado que o preço dos imóveis subiu até 380% nos últimos cinco anos. E que, pasmem!, os imóveis das áreas nobres do Rio já se equiparam aos de Nova York, Paris e Tóquio (leia aqui a reportagem na íntegra). Estamos falando sobre cidades de países superdesenvolvidos, enquanto o nosso Rio de Janeiro, no nosso Brasil - que não está ainda nesse patamar - já consegue alcançar os valores nesse nível. Em 2006, um apartamento de quatro quartos em Ipanema custava, em média, R$ 735 mil. Hoje, nestas mesmas condições, podem custar R$ 3,5 milhões. Em Botafogo, bairro mais popular da Zona Sul, o valor em 2006 era de R$ 354.750 mil, enquanto hoje encontra-se na faixa de R$ 1,5 milhão. 

Zona Sul do Rio: mesmo os bairros mais estagnados e populares da região estão contando com preços inimagináveis, como Copacabana, Botafogo e Flamengo.

Uma explicação óbvia para isso é o aumento da procura em relação à oferta, principalmente na Zona Sul, onde já não há espaços disponíveis para construção. Essa escassez de imóveis na área mais nobre da cidade tem feito com que muita gente migre para as regiões ao redor que também contam com boa infra-estrutura, em busca de melhores opções. A Veja Rio comentou o caso de uma família de brasileiros recém-chegados dos Estados Unidos que desejavam comprar um apartamento na Zona Sul com R$ 500 mil. Não encontraram nada custando esse valor no lugar onde gostariam, tampouco se depararam com imóveis em estado habitável nesta faixa de preço. Solução? Decidiram adquirir um apartamento de 130 metros quadrados na Tijuca (Zona Norte do Rio), com piscina e playground, pela quantia inicialmente prevista. Há uns dois meses, a Veja Rio também contou a história de uma moradora de Botafogo que mudou-se para a Tijuca em busca de um apartamento maior e com valor mais aceitável.
 
Capa do "Morar Bem"
de domingo, jornal O Globo
Ontem (03/04), a reportagem do caderno Morar Bem, do jornal O Globo, mostrou o aumento da procura por apartamentos no Centro como moradia. Considerou-o como um "(ex) estranho no ninho imobiliário que encerrou 2010 com a maior valorização da capital", com rentabilidade de 90,24%, através de dados da Secovi-Rio. Um argumento para isso foi dado pela diretora da Central de Imóveis, Bianca Carvalho: "Nos anos 90, qualidade de vida significava morar perto da praia, num condomínio com todas as possibilidades possíveis de lazer. Hoje, esse conceito está atrelado a morar próximo do trabalho para chegar o quanto antes em casa e, com isso, dedicar mais tempo à família". 

Não sei se é jogada de marketing para a recuperação do Centro - o que eu acho bastante válido -, mas, nesta mesma matéria foi noticiado, como exemplo, o regresso da atriz Sonia Braga ao Brasil, de Nova York direto para o Centro do Rio. A atriz acabou de comprar um apartamento na Rua Álvaro Alvim, próximo à estação Cinelândia do metrô, e se diz entusiasmadíssima com a ideia de morar perto do Teatro Municipal e da Confeitaria Colombo e, ainda de quebra, avistar da sua janela pontos turísticos como o Aterro do Flamengo e o Pão de Açúcar. 


Valorização versus Especulação
Uma informação bastante esclarecedora da reportagem do caderno Morar Bem foi a distinção entre os conceitos de valorização imobiliária e especulação imobiliária. Ficou explicado, através do sócio-diretor da agência Percepttiva, de marketing imobiliário, Rafael Motta Duarte, que "a real valorização é quando há investimentos sendo feitos numa região que, ao ganhar mais infraestrutura, consegue atrair novos moradores. É o caso do Centro e da região do Autódromo, em Jacarepaguá. Na Zona Sul, por exemplo, os preços aumentam porque não há mais onde construir". 


Os apartamentos mais caros da cidade
Com informações da Veja Rio, acredite, há uma cobertura duplex  de 1.600 metros quadrados na Vieira Souto, praia de Ipanema, sendo vendida por 36 milhões. Uma cobertura na Rua Carlos Góis, no Leblon, já publicada aqui em agosto de 2009, de 650 metros quadrados e vista de 360 graus, está à venda por R$ 33 milhões. E olha que é uma rua interna, ou seja, não está na orla. Isso prova como o Leblon anda mais valorizado do que a vizinha Ipanema, que concentra os apartamentos mais caros apenas na orla. Tenha acesso à lista dos 10 mais caros diretamente na reportagem, aqui.

3.4.11

Um exemplo italiano que combinaria com a Rua da Constituição

Vista aérea da rua, no centro de Cerea:
bancos e gramados
Há algumas semanas, o meu irmão Felipe (arquiteto, urbanista e futuro designer!, que também escreve o Disegno à Milanesa) enviou-me o site do Zucchi Architetti, um escritório de arquitetura italiano comandado por Cino Zucchi, profissional de Milão com passagens pelo MIT e Politecnico di Milano.

Na parte nomeada de "Spazi Aperti e Paesaggio" (Espaços abertos e da paisagem) no site, Felipe mostrou-me um dos diversos projetos vencedores do Zucchi Architetti, mais especificamente o "Nuovi spazi pedonali", que acabou sendo implementado em 1997 em uma comunidade da Verona, na Itália.

No caso, uma determinada rua do centro histórico de Cerea foi recuperada através de um novo projeto paisagístico, tornando-a um espaço mais voltado para pedestres do que para automóveis. As calçadas transformaram-se em verdadeiras praças cuidadosamente pavimentadas, incluindo a implementação de bancos de madeira com design bastante original. Não posso esquecer de mencionar a adoção privilegiada de pequenas árvores instaladas ao longo da rua.

À noite, e o piso que circunda
as árvores
Ao pôr os olhos nesse trabalho veio-me logo à cabeça exemplos parecidos aqui no Rio. Ou melhor, lugares parecidos e que poderiam receber essa mesma remodelagem. Atualmente, a Praça Tiradentes anda vivendo um período de revitalização, obras em todo o seu entorno, uma nova casa noturna (o Espaço Acústica), além de nova iluminação e a recuperação de diversos imóveis ao redor. A Rua da Constituição, uma das ruas que margeia a praça, se encaixaria perfeitamente em um projeto como esse de Verona. Acredito muito na recuperação de um determinado lugar quando este é primeiramente recuperado visualmente. E acredito, também, no potencial da Praça Tiradentes - afinal, base é o que menos lhe falta: dois teatros badalados, o Centro Cultural Hélio Oiticica e dezenas de imóveis históricos lindíssimos. Só precisando daquele empurrãozinho dos órgãos competentes... 

 Panorama da Rua da Constituição, no Centro do Rio. O grande entrave de se implementar um projeto parecido como o do Zucchi Architetti ali é a grande quantidade de população de rua. Os bancos seriam ou não usados como cama? Provavelmente sim. De todas as formas, compare as duas imagens e veja que sim, seria agradável uma remodelação paisagística por ali. 

* Fotos originais do site http://www.zucchiarchitetti.com