29.4.10

"Nuvens suburbanas sob o sol de Ipanema", por Joaquim Ferreira dos Santos

Fonte:http://www.fmanha.com.br/blogs/ocrueocozido/wp-content/uploads/2009/09/ipanema.jpg

Faz um tempinho que, passeando pelo blog Rio Que Mora No Mar, me esbarrei em uma crônica do jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, sobre o bairro de Ipanema, lugar bastante privilegiado não só na cidade mas também na coluna social dele, Gente Boa, do jornal O Globo. Em cada cinco artigos da dita cuja, três, pelo menos, falam somente sobre os bairros de Ipanema e do Leblon. Sempre. Esse é o Rio de Janeiro dele, hehe. Bem parecido com o Rio do Manoel Carlos. Pois bem, a sua crônica, intitulada de "Nuvens suburbanas sob o sol de Ipanema", no entanto, foi publicada no longínquo 4 de novembro de 1984, no Caderno B do Jornal do Brasil - há 25 anos atrás. Interessante lê-la; no final, a gente discute.

Ipanema, essa senhora cada vez mais gorda e poluída, reclama de novas estrias e dentes cariados em seu corpanzil: agora é culpa dos ônibus Padron, a linha 461 que, há um mês, está trazendo suburbanos para seu "paraíso", numa viagem de apenas 20 minutos, via Rebouças. É o que dizem seus moradores, inconformados. Ouçam só:

- Que gente feia, hein?! (Ronald Mocdes, artista plástico, morador da Garcia D`Ávila, bem em frente ao ponto do ônibus).

- No outro dia eu saí da loja com um vestido comprido, alinhado, e você precisava ver o que aconteceu. Me chamavam de urubu, um horror. (Débora Palmério Fraga, gerente da Gregorio Faganello).

- É chocante dizer, mas eles estão desacostumados com os costumes do bairro. Nem vou mais à praia aqui. É farofeiro para tudo quanto é lado, olhando a gente de um modo estranho. Ficam passando aquele bronzeador. A sensação é de que eles estão invadindo o nosso espaço. (Maria Luiza Nunes dos Santos, ex-freqüentadora da praia da Garcia D`Ávila e que agora só vai ao Pepino).

- Desse jeito o verão vai ser um faroeste. (César Santos Silva, proprietário da lanchonete Chaika, na Visconde de Pirajá).

Os comerciantes estão se organizando e já despacharam diversos abaixos-assinados aos gabinetes de Leonel Brizola, de Jaime Lerner (o secretário que inventou a linha de ônibus), ao Detran, a todos que eles julgam com poderes para erradicar o mal. Reclamam também do inferno que se formou no trânsito. Ouçam mais:

- Depois das 17 horas a minha vitrine fica escondida atrás de uma fila enorme de passageiros. É claro que as clientes ficam bem inibidas de atravessar no meio daquela gente toda. (Doris Serfaty, da butique Carla Roberto, na Rua Vinicius de Moraes. Ela está lançando a moda que deixa o sutiã à mostra).

- A rua é muito apertada e, quando o ônibus pára, interrompe o tráfego no bairro inteiro. Só dá ele na rua. Fica uma buzinação de louco. Além disso ele é muito pesado, e o asfalto está cedendo. Tem que botar ele para fora da área do comércio. (Luli Beviláqua, da loja Luli R).

***

Há muito tempo que Luli não freqüenta a praia de Ipanema, preferindo as delícias mais calmas e limpas da Barra da Tijuca. Mas, definitivamente, já não há qualquer gueto de sofisticação sobre nossas areias, lamenta. Pois até a Barra está sendo cortada por outra linha da Padron, diretamente de Madureira. Na praia de domingo passado, Luli já sentiu a diferença.

- A praia mudou de cor. Eu fico ali no Farol da Barra, junto com o pessoal que pega wind. Apareceram umas caras inteiramente novas. Um cara estendeu a toalha, deitou e dormiu o tempo todo. Nunca tinha visto isso.

Os moradores de Ipanema sugerem que a Padron faça seus pontos no Jardim de Alá, na Praça General Osório, na Henrique Dumont, na Epitácio Pessoal, locais mais amplos, onde não causam qualquer dano ao fluxo do trânsito. E que a polícia, o 19º Batalhão, dê blitzen constantes no bairro. Eles acham que, se continuar do jeito que está, Ipanema no verão vai ser notícia não pelo biquíni enroladinho ou pelo sutiã exposto.

- No sábado um sujeito desses ônibus sentou em sua cadeirinha de praia dentro da minha loja para aproveitar o ar refrigerado, enquanto esperava a condução. Tive que chamar os seguranças da rua. Quando chegou na segunda-feira fui abrir os cadeados da porta e não consegui. Os farofeiros tinham entupido tudo com areia e papel. Precisei serrar. (Dono de uma sofisticada loja de decoração na Visconde de Pirajá, que não se identifica com medo de represálias).

- São grupos enormes, sempre gritando, fazendo bagunça e puxando os cordões de quem passa. Estão criando um cenário de vandalismo e terror. Os moradores por aqui estão assustados. (César Santos Silva, Chaika).

- Os passageiros na fila ficam olhando aqui para dentro de um jeito mal-encarado. As freguesas comentam com a gente: "Que horror!" No outro dia tinha um mal-encarado que ficou no ponto um tempão, sem pegar os ônibus. Como estava com a mão enrolada pensamos até que tivesse uma arma dentro. Chamamos a policia. Viver nesse clima não dá. Essa é a rua das melhores boutiques do Rio. Onde é que estavam com a cabeça quando botaram um ponto de ônibus suburbano aqui? (Cristina Campos, vendedora da Spy and Great, em frente ao ponto da Garcia D`Ávila).

***

Os depoimentos se sucedem, falam de churrasqueiras na praia, de bóias de pneus, do trânsito emperrado atrás das enormes traseiras dos Padron. Para que tudo melhore há tanto os que sugerem a mudança dos pontos, a retirada dos ônibus, mais polícia nas ruas, assim como mais educação. Mas pedem pressa. Pois o verão está aí e antes dele o Natal, mês que vem.

- A gente paga imposto tão caro para eles botarem essa pobreza na porta da gente. parece até a Central do Brasil. De vez em quando a gente passa por eles e grita "Japeri". Eles ficam chateados. (Ronaldo Mocdes, artista plástico).

- Fica essa negrinhagem aí na porta... (Cristina Campos, vendedora da Spy and Great).

- Quem tem um nível melhor já está procurando outra praia que não seja Ipanema. Eles não têm classe, não têm educação. Eu sei que a praia é pública, mas é horrível. No outro dia eu estava na praia conversando com a minha irmã, dizendo como os suburbanos são horríveis. Uma suburbana reclamou, mas eu nem dei conversa. Vê se eu vou me misturar. (Sonia Barletta, moradora da Rua Vinicius de Moraes).

- Eles têm direito de ir à praia, mas podem ir de maneira organizada. Ou senão ficar na praia deles, em ramos. O governo podia fazer também um lago artificial pra eles lá no subúrbio (Maria Luiza Nunes dos Santos, vendedora da Faganello).

- O turismo vai ser prejudicado, você vai ver. Ou você acha que o pessoal do Caesar Park vai querer se misturar com eles, suas bananas, piquenique. Pode parecer elitista, mas não é não. os suburbanos atrapalham. (Débora Palmério Fraga, gerente da Faganello).

- É o fim da picada, Ipanema acabou. Na praia ficam agora uns homens gordos passando bronzeador na barriga branca, aquelas cenas de amor de suburbano. Na minha porta é trocador assobiando, uma multidão sempre, gente feia mesmo. Não dá nem pra sair mais com os meus cachorros. (Ronald Mocdes, artista plástico, acariciando seus cachorros da raça Saluky, de nomes Tramp e Chivas).

- Au, au, au. (Tramp e Chivas).


Depoimentos bem diretos e sinceros. Até demais. Isso foi em 1984. Hoje, em 2010, será que os comerciantes e moradores de Ipanema continuariam com este mesmo modelo de discurso? Sem dúvida, a abertura da estação Ipanema-General Osório do metrô, em dezembro de 2009, impactou a região com a chegada de mais pessoas na praia "de lá", e nas ruas também - muitas delas, provenientes dos subúrbios da Linha 2 do metrô, que antes não tinham acesso ao bairro. A impressão que tenho é que hoje as pessoas não reagem mais dessa forma, como retratado na crônica. Ou pelo menos não se expõem mais tão descaradamente. E aí fica a questão: a sociedade está mais hipócrita ou não? A "elite" está mais flexivel e não se importa mais com os suburbanos circulando pela zona nobre? Esse preconceito da Zona Sul com a Zona Norte e o subúrbio é coisa do passado? Que que vocês acham?

18.4.10

Flanando, faraniando...

Rua em Botafogo traz um misto de arquiteturas clássicas - e sombrias! - acolhidas pelo espírito jovem-universitário da galera que por ali transita





A Rua Farani, no bairro de Botafogo, é aquele tipo de rua que todos conhecem de nome, que serve de referência para localizações rápidas, embora poucos, de fato, andem por ali. A não ser quem mora pela região. Ou, por quem estuda em alguma das universidades do bairro e faz um stop lá para a confraternização - alcóolica - do dia, junto dos amigos. Pequenininha, ela começa na Praia de Botafogo e termina lá em cima, na Rua Pinheiro Machado, já no iniciozinho do bairro das Laranjeiras. Logradouro curioso. Na Farani rola uma mistura do feio com o bonito, do antigo com o moderno, do alternativo com o popular. Acompanhe o texto e as fotos e tire suas próprias conclusões!



A FARANI TEM INÍCIO na Praia de Botafogo e termina lá em cima, na Rua Pinheiro Machado. Na foto da direita, pode-se ter uma noção da bela paisagem que é a Praia de Botafogo, vista através da Farani.




NA ESQUINA COM A Praia de Botafogo, uma filial da Caixa ocupa um prédio histórico da Rua Farani. Bem simpático!


Um dos meus maiores receios, ultimamente, ao fotografar as rua do Rio é a questão de segurança. Sair por aí com uma câmera nas mãos não tem sido fácil; prestar atenção nos malandros quase supera o meu nível de concentração em observar os detalhes urbanos aos quais gosto de admirar em uma rua. Na esquina da Farani com a Praia de Botafogo, os casos de "assaltinhos" são bem comuns por pivetes. Vi alguns por ali, no semáforo, mas continuei na minha. Meu anjo da guarda me protege, haha... Pois bem, de um lado da esquina, uma casa charmosíssima, provavelmente de um século remoto, ocupada por uma filial da Caixa. Do outro, uma casa de sucos, dessas que vendem sucos (é claro!), mates, joelhos, pastéis, sandubas naturais... Trânsito intenso. Adoro muvuca urbana.



COM SOMBRINHAS QUE protegem o pedestre do tenebroso sol carioca, muitos dos sobrados e imóveis da Farani funcionam, hoje, como estabelecimentos comerciais, além de bares e restaurantes alternativos.


Ao adentrar a Rua Farani, a primeira impressão que se tem é de que se trata de uma rua sombria. Talvez essa denominação seja um pouco exagerada pois a Praia de Botafogo é bem clara, aquela visão maravilhosa, árvores, e bastou entrar numa ruazinha logo ali do lado para que a escuridão apodere os seus olhos. Mas isso tem uma explicação: apesar da localização privilegiada, grande parte da arquitetura da Farani é muito esquisita. Sabe aqueles prédios que existem na Avenida Presidente Vargas, sustentado por pilastras monstrengas pilotis, que cheiram muito mais a xixi do que o seu próprio excremento? Então, essas (nada) simpáticas vigas também fazem parte da Rua Farani, servindo de mural público, repleta de pichações e de propagandas coladas de "Compro ouro", "Ganhe dinheiro", "Meninas sapecas", entre outros. Logo, quando tais edifícios (muitos deles residenciais) são sustentados por essas altas pilastras, existe sempre um recuo - sombrio! Fica realmente escuro! - onde brota o comércio. Assim, lojinhas populares, como óticas, salões de beleza e farmácias passam a competir em espaço com os bares - verdadeiros pontos de encontro da galera universitária na região.



O CRUZAMENTO DA Farani com a Rua Barão de Itambi e a Praça Chaim Weizman ao fundo.


Em Botafogo existem muitas universidades. Só ali no entorno da Farani está a Fundação Getúlio Vargas, a IBMR, a FACHA (Hélio Alonso) e, por fim, a Universidade Santa Úrsula, mais lá pra cima, na Pinheiro Machado. O perfil jovem, de mochila nas costas, que circula pela Rua Farani é marcante, assim também como muita gente bem alinhada e de diferentes idades, mas não porque o local seja chique, sofisticado; é que tem muitas empresas e escritórios por ali, como a própria FGV, que não permite que alguém entre lá de qualquer jeito. Enfim... Como o público é variado, os restaurantes bacaninhas não poderiam faltar. Ainda na primeira quadra, entre a Praia de Botafogo e a Rua Barão de Itambi, têm muitos sobrados antigos que foram restaurados e hoje abrigam tais restaurantes, bastante alternativos, entre eles o Miako (comida japonesa), o Casa da Sogra (pé sujo quase limpo) e o Mizu (incrível combinação de comida japa com mexicana).



A BIBLIOTECA MUNICIPAL Machado de Assis, mais conhecida como a Biblioteca de Botafogo, é um dos pontos principais da adorável Praça Chaim Weizman. Construção da década de 20, o imóvel pertenceu à família Castro Maya.




APROXIMANDO-SE DO final da rua, a Praça Chaim Weizman perde um pouco da sua beleza para dar espaço ao acesso a uma passarela de pedestres, que passa sobre a Rua Pinheiro Machado. Na foto à direita, as citadas lojas populares, localizada no recuo dos edifícios sustentados pelas vigas nada estilosas.


Na esquina com a Barão de Itambi, um posto de gasolina; do outro, uma praça linda. A dita cuja é a Praça Chaim Weizman, repleta de gigantescas palmeiras, árvores, jardins floridos e, ao fundo, uma casa bastante atraente, de modelo neoclássico, do final da década de 1920: a Biblioteca Popular Municipal Machado de Assis, anteriormente residência da família Castro Maya. Casa muito charmosa em praça idem, que já simboliza o fim da Rua Farani, lá na confluência da agradável (e caótica) Rua Pinheiro Machado, em frente à Santa Úrsula. É. Uma vez mais, localização bem boazinha.



À ESQUERDA, moça caminha pela ampla calçada da Farani, entre as ruas Jornalista Orlando Dantas e Pinheiro Machado. Na foto à direita, o fim da Rua Farani, com vista para a Universidade Santa Úrsula e a Rua Pinheiro Machado.



Gostou deste post? Circula ali pela Farani? Deixe seu comentário, então!

14.4.10

Rio & Geografia: Os ônibus (Parte 5/5)




Parte final

Linhas extintas
Como eu já disse lá nos primeiros post, o carioca tem um carinho especial em relação os ônibus e suas linhas, por mais problemas que apresentem. O ônibus faz parte da nossa vida, seja por ser o nosso meio de transporte, seja pelo seu design arrojado ou pelo estardalhaço que provoca ao frear na frente da sua casa ou edifício... Enfim, todas essas são formas de relacionamento - boas ou más. E às vezes esse tipo de assunto provoca, sim, nostalgia. E isso fica mais evidenciado quando lembramos, é claro, o passado, o que existia... e lembramo-nos das linhas de ônibus já extintas. Você pode ter demorado para perceber, mas algumas somem sem explicação. Outras desaparecem por pressão social. Enfim! Vai aí uma listinha de algumas linhas que já não existem mais:



174 - Central x Gávea (após o fatídico sequestro da linha pelo criminoso Sandro do Nascimento, em junho de 2000, a 174 foi retirada de circulação por ter ficado associada ao triste episódio. Substituída pela atual 558)442 - Lins x Urca (diz a lenda que essa linha foi desativada através da pressão dos moradores da Urca, que não queriam "suburbanos" em sua praia)
202 - Colégio Militar x Praça XV454 - Grajaú x Leblon (Via Rua Haddock Lobo/Santa Bárbara)
207 - Rodoviária x Lapa (Via Estácio/Praça Afonso Pena)500 - Pão de Açúcar x Barra (Via Orla/Alvorada)
221 - Maracaí x Praça XV (Via Mariz e Barros / Usina)558 - Horto x Praça General Osório
230 - Rodoviária x Boca do Mato (hoje o trajeto é operado pela linha 606, que estendeu seu itinerário até o Engenho de Dentro e conta com linhas especiais que circulam pela Boca do Mato)605 - Lins x Rodoviária (Via Avenida Marechal Rondon)
274 - Maria da Graça x Castelo (Até pouco tempo, a 274 funcionava como Méier x Tiradentes e, hoje, já não circula mais)626 - Penha x Praça Saens Peña (Via Del Castilho/Méier)
369 - Pedra de Guaratiba x Largo de São Francisco640 - Vigário Geral x Praça Saens Peña
404 - Colégio Militar x Jardim de Allah (a partir do ano 2000, essa linha passou a operar apenas entre o Rio Comprido e a Zona Sul, mas foi desativada no final de 2008)675 - Méier x Penha (Via Inhaúma)
416 - Forte x Usina (Via Túnel Santa Bárbara)700 - Vigário Geral x Barra da Tijuca
410 - Praça Varnhagem x Praça Antero de Quental (a 410 ainda funciona, mas com itinerário Saens Peña x Gávea)953 - Pavuna x Bonsucesso


As ruas do Rio podem perder o seu colorido
No final de 2009, o prefeito Eduardo Paes decretou que as empresas de ônibus do Rio deveriam entrar em um acordo em relação a um design padronizado dos veículos, dando um fim nas pinturas tão tradicionais e famosas dos ônibus. Observe a repercussão, em reportagem do jornal O Dia, de março de 2010:

Fernanda Alves e Mahomed Saigg - Jornal O Dia

Prefeitura quer que todos os ônibus da cidade sejam padronizados por região até a Copa de 2014. O gasto para mudar a frota é calculado em R$ 80 milhões. Empresas e usuários que reconhecem linha pela cor rejeitam proposta

Rio - A Prefeitura planeja padronizar os ônibus da cidade. A ideia é pintar todos os coletivos de uma cor só, levando em consideração as regiões para onde vão. Publicado em decreto no Diário Oficial de 3 de novembro, o projeto, que ainda está em estudo, tem a intenção de deixar o Rio mais bonito para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. Mas não foi recebido com bons olhos pelas empresas de ônibus nem pela população.

Para pintar os 8 mil ônibus da cidade, as empresas vão gastar um total de R$ 80 milhões. Procurada, a Fetranspor preferiu não comentar.

A primeira proposta apresentada pela Prefeitura sugeria ônibus de duas cores: azul-bebê e salmão. A parte de baixo, na altura das rodas, teria um friso com o desenho do calçadão da Praia de Copacabana estilizado. Os primeiros modelos não agradaram às empresas. Segundo os empresários, a parte que receberia o friso é a que mais se danifica e o concerto ficaria mais demorado.

As empresas pediram, então, para que outras opções fossem confeccionadas. Segundo a Secretaria Municipal de Transporte, o layout não foi definido.

Nas ruas, os passageiros preferem continuar com os veículos diferentes e coloridos. “Vai ficar mais difícil identificar o ônibus. Todo mundo já grava pela cor. Muita gente vai errar. Tem coisas mais importantes para o prefeito resolver ”, reclamou a estudante Maysa Mazzeo, 21 anos.

A aposentada Geneci Santos, 68, não gostou da notícia. Com catarata, ela tem dificuldade para enxergar de longe e teme problemas na hora de se locomover pela cidade. “Vou ter que perguntar às pessoas no ponto qual o ônibus que está passando”, prevê.

Apaixonado por ônibus, Sydney Júnior, 49 anos, ficou insatisfeito quando soube da intenção do prefeito Eduardo Paes. “Sou contra. Não vou querer mais colecionar miniaturas de ônibus do Rio”, lamenta. O busólogo tem em casa 67 miniaturas e reclama que a padronização vai tirar a graça da sua paixão pelos veículos. “Em meu site fiz uma pesquisa sobre a alteração e o resultado foi unânime. As 100 pessoas que votaram foram contra”, revela o dono do portal www.cidadeonibus.com.

Colorido dos veículos já é uma marca da cidade

O engenheiro de transportes Fernando Mac Dowell torce para o projeto não sair do papel. Para ele, além de confundir os usuários, a padronização dos ônibus não combina com o Rio. “Vai ficar monótono, sem graça. Nós sempre fomos conhecidos pelos ônibus coloridos. Vamos perder uma de nossas marcas”, acredita, elogiando a criatividade das empresas ao criar o layout dos veículos: “É tão legal ver os diversos modelos criados pelas empresas”.

Mac Dowell adianta que existem problemas do transporte carioca que precisam ser pensados com mais prioridade do que a cor dos ônibus. “Temos que resolver falhas sérias de metrô e trens. Poderíamos pegar os R$ 80 milhões dos gastos com pintura e usar em abatimento de passagem”, sugere.

O busólogo (apaixonado por ônibus) Jaílson Abreu, 29, lamenta a mudança. “Muitas pessoas nos admiram pelos ônibus. Vêm aqui para tirar foto com os diversos modelos. Agora vai ficar sem graça”, desabafa. Ele tenta entender a decisão da prefeitura: “Acredito que estejam fazendo isso para passar uma ideia de transporte organizado, mas é só maquiagem”. Ele ainda tem a esperança de que a alteração não aconteça: “A população não vai concordar, e eu espero que mudem de ideia”.

8.4.10

Rio & Geografia: Os ônibus (Parte 4/5)




Continuação

ILHA DO GOVERNADOR
Talvez este seja um dos lugares no Rio com o maior índice de precariedade em transportes coletivos, como os ônibus. Composta por dezesseis bairros, apenas pouco mais de vinte linhas circulam por essa região da Zona Norte que, para dificultar ainda mais a fluidez do trânsito, conta com apenas uma entrada e saída – a Linha Vermelha. Ainda que o Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão, esteja localizado lá, isto parece não ser motivo suficiente para que a Ilha esteja bem integrada com a cidade. Além dos poucos ônibus que circulam por lá, monopolizados em grande parte pela Paranapuã (na foto à direita, a Linha 910, que faz o percurso Bananal - Madureira) e a Ideal (na foto à esquerda, a Linha 925, operada pela Ideal entre Bancários e o Castelo), a maioria dos veículos circulam em estado deplorável, verdadeiras carcaças ambulantes. Uma experiência minha com um dos ônibus da Paranapuã foi com a linha 634, que faz o trajeto Freguesia – Praça Saens Peña, quando eu estudei por um tempo no Fundão; lembro-me da sujeira escandalosamente aparente dos assentos, das fendas soltas e do choque que levávamos ao segurarmos as barras de ferro do coletivo, onde os fios da campainha estavam sempre soltos e à mostra. Esse é um panorama não só da linha 634, mas também de toda a frota destas empresas operantes na Ilha do Governador. E mais: ônibus velhos, com atrasos e irregularidades, além das linhas variantes e extraordinárias, que aparecem quando você menos espera - e desaparecem quando você mais deseja.

A falta de itinerários alternativos também é um grande problema. Os moradores da Ilha que vivem em função dos ônibus estão restritos a lugares do subúrbio, da Zona Norte e do Centro. Ônibus para a Zona Sul restringem-se apenas àqueles refrigerados e especiais, que vão para o aeroporto, com tarifa na faixa dos R$ 10 reais. Quer ir para a Baixada ou para a Zona Oeste? Desista. Ou então pegue mais de duas conduções. Definitivamente, a Ilha é um dos piores lugares nessa questão de ônibus, contribuindo e muito para o avanço dos transportes piratas como vans e kombis ilegais.


SUBÚRBIOS
O subúrbio, em geral, como já foi retratado no caso do Grande Méier, tem um grande diferencial na disposição de suas ruas e avenidas em relação ao núcleo da cidade; a zona é pouco espremida entre os morros, permitindo uma maior fluidez das vias em diferentes direções. Uma espécie de São Paulo carioca. A interligação entre os bairros do subúrbios é boa devido à proximidade entre eles, embora a conexão com o Centro seja bastante difícil por duas questões muito relevantes: as vias do subúrbio são, como um todo, mal projetadas (isso se algum dia foram planejadas), além das áreas de risco que se encontram pelo meio do caminho, em grandes quantidades. Ademais, o serviço de ônibus nesta área, antes de tudo, é dificultado por algumas áreas de risco existentes nesta zona. Regiões próximas a favelas, em geral, tendem a sofrer de ataques violentos como depredações, ateamento de fogo aos veículos e assaltos. Logo, determinados logradouros e bairros acabam por ser mal atendidos.

Apesar do grande espaço geográfico, o número de avenidas e ruas largas que tenham a capacidade de receber e transportar ônibus para diferentes zonas da cidade é desproporcional à sua extensão, o que contribui para a concentração das linhas em eixos principais, como as ruas que beiram as linhas férreas e avenidas como a Dom Hélder Câmara, Brasil, Leopoldo Bulhões e Pastor Martin Luther King.

Assim como na Ilha, ônibus para a Zona Sul são escassos. Linhas como a 456, 457, 484, 485 e 497 circulam lotadas, sempre, e atendem à apenas uma parte do subúrbio. Linhas para o Centro da cidade existem em abundância, o que é bom, assim como as linhas circulares dentro da região, como a 624 (Mariópolis – Praça da Bandeira), 667 (Madureira – Méier), 680 (Penha – Méier) e 711 (Rocha Miranda – Rio Comprido, foto à esquerda). As citadas linhas, de trajetos longos, percorrem todo o subúrbio e áreas da Zona Norte a fim de alimentar as vias secundárias e terciárias que não são atendidas, como também, por exemplo, a linha 623, a única que atravessa o Túnel Noel Rosa. A concentração de ônibus para Jacarepaguá, Barra da Tijuca e o resto da Zona Oeste ainda se localiza nos bairros de Madureira e Cascadura, que, mais do que bairros, são quase um grande terminal de linhas ônibus.

ZONA OESTE
Enquanto no Leste do Rio de Janeiro o excesso de ônibus que circulam pelas ruas e avenidas gera polêmica, na Zona Oeste o caso é contrário: a escassez desse meio de transporte é um grande e grave problema, que afeta, diariamente, milhares de moradores de Bangu, Realengo, Campo Grande, Santa Cruz, entre outros bairros da região. Neste caso, há diversos fatores que contribuem para o péssimo serviço dos ônibus na Zona Oeste:

Longos percursos
Embora bairros como Santa Cruz e Campo Grande sejam verdadeiras cidades dentro do Rio, portadores de grandes sub-bairros e até mesmo um Centro dentro de seus territórios, o Centro do Rio ainda é o Centro econômico, o local gerador de empregos para grande parte da população carioca, principalmente à da Zona Oeste. Portanto, a quantidade de ônibus que se destinam ao Centro não chega a ser nem perto do suficiente para atender toda esta demanda. Soma-se à isso a verdadeira batalha que é para ir da Zona Oeste para o Centro, que fica na extremidade leste do Rio: a distância natural entre esses dois pontos mistura-se, também, aos engarrafamentos quilométricos na ida e volta para a casa, podendo implicar, até mesmo, no custo das tarifas (mais elevadas, é claro!).

Baixa qualidade de serviço
Se não bastassem os “perrengues” que a população da Zona Oeste enfrenta, as empresas que operam nesta área, volta e meia, são indiciadas pela baixa qualidade de seus serviços, com veículos velhos e sujos, além da frequência irregular das linhas, que acabam não operando nos intervalos de tempo pré-determinados. Em setembro de 2009 foi noticiado que 47 linhas de ônibus das viações Feital, Ocidental e Oriental seriam cassadas pelo péssimo estado de suas frotas. De acordo com a reportagem, do Jornal O Dia, uma passageira conta que a linha 398 (Campo Grande – Tiradentes), da viação Oriental, vive em frangalhos, com janelas e bancos quebrados, baratas e atrasos constantes. Na verdade, apenas um exemplo, como este, pode ser generalizado como o real panorama – e o drama – de quem depende dos ônibus na Zona Oeste. Já a linha 390, que liga o bairro de Sepetiba ao Centro, da Viação Oeste, cobra R$ 4,40 por um serviço de lixo, com atrasos e lotações desumanas.


A VIAÇÃO FEITAL, alvo de reclamações constantes na Zona Oeste, largou de mão a linha 367 (Praça XV - Realengo), em Agosto de 2009, sem razão alguma, e circulava apenas com 10% dos ônibus da linha 756 (Barra da Tijuca - Senador Camará). No entanto, a 367 foi incorporada à Viação Bangu, em março de 2010, após ter passado pela mão da Viação Campo Grande alguns meses antes, cujo sucateamento se compara à Viação Feital. Além disso, apesar da foto acima retratar um dos veículos da Feital no ano de 2005, não significa, necessariamente, que modelos mais novos tenham sido incorporados à frota. .



A IMPLEMENTAÇÃO da nova linha E05, que liga Urucânia ao Largo da Carioca: a placa com o itinerário e o modelo dos veículos.


Reestruturação do sistema de ônibus
Desde o ano passado, a Zona Oeste vem recebendo novas linhas de ônibus para melhor atender à população. Além das linhas que integram ao metrô, como as que saem de Bangu e Santa Cruz à estação Coelho Neto, na linha 2, em janeiro de 2010 foram inauguradas as linhas 363 (Roque Barbosa – Tiradentes), 364 (Gericinó – Tiradentes) e 802 (Taquaral – Bangu), sendo este último circular ali pela Zona Oeste mesmo. Entre a Rua Roque Barbosa, em Bangu, e a Praça Tiradentes, no Centro, são 82,2 km, contra os 90,40 km percorridos pela nova linha 364. Uma distância e tanta! Além destas, visando o conforto dos moradores da Zona Oeste, foram criadas outras duas linhas, ministradas pela viação Expresso Oeste, com ar condicionado em modelos semi-rodoviários, sendo elas as linhas E04 (Cosmos – Carioca) e E05 (Estrada da Urucânia – Carioca). O conforto, no entanto, tem seu preço: a tarifa custa R$ 4,80. Até que está em conta, uma vez que existem linhas do mesmo nível de conforto – bancos reclináveis e refrigeração – custando mais de R$ 5 em trajetos bem mais curtos, como do Grajaú ao Castelo ou do Leblon à Rodoviária. De todos os modos, é uma safadeza – com o perdão da palavra.

*A fonte das fotos está contida nelas próprias.

4.4.10

Rio & Geografia: Os ônibus (Parte 3/5)




Continuação

GRANDE MÉIER
O Méier, como um bairro bastante central dentro da área suburbana da Zona Norte, concentra diversas linhas de ônibus e paradas finais. Diferentemente de regiões como a Zona Sul e a Tijuca, que são espremidas entre os maciços rochosos, a região do Méier é mais aberta, onde as ruas se espraiam em distintas direções, contribuindo assim para uma maior diversificação dos itinerários. Mesmo assim, carece de críticas. Na Rua Dias da Cruz, por exemplo, principal via do bairro, não existe nenhuma linha de ônibus que conecte à Zona Sul. Ao Terminal Rodoviário Novo Rio, a linha 606 (foto à esquerda) é uma das opções, embora, para isso, o passageiro tenha que percorrer o Grajaú, Andaraí, Tijuca e a Praça da Bandeira para se chegar até lá, quando se o coletivo utilizasse a Avenida Marechal Rondon como caminho teria grande parte do tempo de percurso reduzido. Já no “outro lado” do Méier (o bairro é cortado pela Linha Férrea), onde se situa o Jardim do Méier, não existem linhas de ônibus que percorram a Avenida Rio Branco, no Centro da cidade.


A VERDUN, empresa de ônibus que circula na região do Méier, é famosa por seu design em azul e administra linhas como a 247 (Camarista Méier-Passeio), 238 (Água Santa-Praça XV) e 455 (Méier-Copacabana).


Mais alguns outros exemplos: com a Linha Amarela logo ali ao lado, no bairro do Engenho de Dentro, ir do Méier à Barra de ônibus é quase um sufoco. Pode ser que eu esteja enganado, mas até pouco tempo a linha 691 (Méier-Alvorada) usava a Linha Amarela como caminho até a Barra, porém descia na primeira saída, fazendo um demorado passeio pelas vias do Pechincha, Freguesia e Cidade de Deus. No Lins, bairro mais ao sul do Méier, apenas uma linha de ônibus percorre a Rua Lins de Vasconcelos, principal do Lins, que é a 232 (Praça XV – Lins). Esporadicamente surge uma variação da 232, chamada de S09, fazendo o trajeto Lins – Leme. Mas ninguém nunca sabe quando passa... É na sorte!

BARRA DA TIJUCA e RECREIO
A Barra da Tijuca hoje é uma das áreas mais bem equipadas da cidade; afinal, o vetor de crescimento urbano nas últimas décadas foi em direção a esta região, que engloba também o Recreio dos Bandeirantes, ainda em fase de crescimento e estabilização. Ao mesmo tempo que o transporte público, como os ônibus, na Barra e no Recreio, fiquem em segundo plano – justamente pelo poder aquisitivo dos moradores de se locomoverem à base de automóveis particulares –, a região é bem servida de ônibus. A grande questão mesmo fica por conta dos monstruosos engarrafamentos; portadores de majestuosas avenidas, como a das Américas, que chega a ter quase sete pistas em determinados trechos, a estrutura rodoviária da Barra não coincide com a do resto da cidade, caracterizada por avenidas de largura limitadas, seja pelo mar e pela montanha, ou pela falta de planejamento no início da ocupação urbana da cidade. Um exemplo claro disso é a conexão da Barra com a Zona Sul: a Av. Niemeyer e o Túnel Zuzu Angel não comporta o fluxo de trânsito proveniente da Barra. Logo, por mais que a Barra esteja bastante integrada por ônibus com Jacarepaguá, Bangu, Santa Cruz, Alto da Boa Vista, Zona Sul, Centro, o acesso ao bairro é ruim, independente do meio de transporte que se utilize. O metrô, previsto para ser inaugurado no Jardim Oceânico em 2015, pode ser o caminho para uma salvação, principalmente para o Recreio, um dos bairros mais isolados do Rio nos dias de hoje.


A LINHA 179, da Real Auto Ônibus, transita pela Avenida Olegário Maciel, conectando a Barra da Tijuca ao Centro do Rio, via Zona Sul.


JACAREPAGUÁ
Jacarepaguá e sua região, na Zona Oeste, é um dos lugares no Rio que possui os piores acessos em direção ao Centro. Rodeada por montanhas e áreas florestais, os ônibus precisam respeitar tais limites para percorrer seus itinerários, que tornam-se, muitas das vezes, cansativos e longos. Algumas das conexões com o Centro, muitas delas feitas através da Av. Menezes Côrtes (Grajaú-Jacarepaguá), que corta a Serra dos Três Rios, em linhas como a 240 (Praça XV – Cidade de Deus) e a 269 (Praça XV – Curicica), e a 2113 (Castelo – Taquara), que vai para o Centro através da Zona Sul – linha esta, aliás, que custa R$ 4,40, 87,2% mais cara em relação ao preço regular das tarifas. Apesar disso, Jacarepaguá é bem integrada com a Zona Oeste e com a Zona Norte, principalmente com a Barra e Madureira, respectivamente. A ligação com a Zona Sul é feita através da 2113 ou das linhas 750 e 755 (Cidade de Deus e Cascadura-Gávea), isto é, uma ligação tímida, de pouca variedade e/ou opção. A inauguração da Linha Amarela, na década de 1990, facilitou o acesso de Jacarepaguá aos subúrbios da Zona Norte, embora a maioria das linhas de ônibus que transite entre essas regiões se utilize da Rua Cândido Benício, no acesso de Campinho à Jacarepaguá, prova de um mal gerenciamento dos itinerários, que visa o lucro das empresas de ônibus como prioridade.


O MAPA MOSTRA, os acessos e saídas da região de Jacarepaguá para diferentes zonas da cidade: apesar da boa integração rodoviária com a Zona Oeste e a Barra da Tijuca, Jacarepaguá é isolada em relação ao Leste (zonas Central, Sul e parte da Norte), seja por suas limitações geográficas ou por áreas de risco. Clique para ampliar.


Logo, assim como a Barra e o Recreio, o grande problema de Jacarepaguá são seus poucos acessos e saídas, que torna as viagens muito longas. A remodelação dos itinerários pode até ser repensada em menor escala, como, por exemplo, quais vias dentro da própria região de Jacarepaguá determinados coletivos transitariam, de forma a agilizar seu percurso para fora da mesma. Entretanto, variedade de opções de como se chegar a outros lugares do Rio a partir de Jacarepaguá são quase inexistentes, tendo, não só os ônibus, mas como todos os meios de transporte, de respeitarem o contorno das montanhas e das opções de vias disponíveis.

Fontes das fotos, por ordem de aparição:
1 - Disponível em Na Poltrona Bus Brasil. Acesso em 04/04/10, às 20h45.
2- Disponível em Busologia do Rio. Acesso em 04/04/10, às 20h33.
3 - Disponível em Oeste Ônibus. Acesso em 04/04/10, às 20h55.