
Há uns quinze dias, um novo arrastão aterrorizou os banhistas do Arpoador. Testemunhas afirmam que uma parede humana avançou pela areia em direção ao Leblon simulando uma briga. Apavoradas, as pessoas correram para se refugiar na calçada e, na confusão, muitas foram roubadas. No dia seguinte ao ocorrido, li nos jornais o depoimento de um policial dizendo que o dia de sol surpreendeu as autoridades e a multidão ultrapassou em muito o contingente deslocado para garantir a segurança da orla. Em seguida, o oficial confessou estar cada vez mais difícil dar conta da ordem em Ipanema e no Leblon devido à quantidade crescente de visitantes que têm acesso às suas praias. Como alternativa, ele sugeria que as linhas de ônibus fizessem sua parada final no Flamengo, para encaminhar o povo para o Aterro, uma praia maior e com mais capacidade de abrigar tanta gente. FERNANDA TORRES é atriz e autora desta crônica, publicada na revista Veja Rio, do dia 2 de Setembro de 2009. A charge ilustrada no post também pertence à revista; link original aqui.
O testemunho do guarda me surpreendeu pela sinceridade. Afinal, não é politicamente correto coibir o direito de um mortal vir se banhar num mar que é de todos. Uma das graças do Rio é que seus grandes atrativos urbanos são democráticos, especialmente a praia. Não fica bem dizer que quem anda de ônibus deve descer no Flamengo e, se quiser gozar da paisagem de Ipanema, que pague um táxi ou caminhe até lá. Por outro lado, esse homem da lei está falando de uma realidade que enfrenta na pele: dar conta da zorra nos fins de semana cada vez mais populosos em uma cidade violenta como o Rio de Janeiro. A lotação na Prainha foi regulada, a Barra tem tamanho para ser democrática e Ipanema sofre com o aperto.
Se já está difícil agora, imagine depois, quando inaugurarem o metrô no bairro?! Se eu morasse longe da costa e tivesse a chance de pegar um trem refrigerado que me levasse até a mitológica vizinha da Princesinha do Mar, juro por Deus, desfilaria todo domingo na ciclovia.
As aglomerações humanas no Rio são quase milagrosas, se levarmos em conta o potencial violento existente em cada uma delas. Passei um réveillon em Copacabana há uns anos. Depois da meia-noite, resolvi molhar os pés no mar para garantir um bom ano e fiquei pasma com o zoológico urbano em procissão pacífica. Uma imensa roda de umbanda chamou minha atenção. Como era alta madrugada, muitos dos participantes já estavam caídos, mais pra lá do que pra cá, enquanto uma mãe de santo estoica insistia em fazer as honras da casa. Fiquei parada, meio hipnotizada pela cena da sacerdotisa cambaleante tratando de um homem desfalecido no chão. Ela dançava em volta dele e sugava o ar com a boca e as mãos, recolhendo para si tudo de ruim da pobre alma atormentada. Eu estava mal posicionada, entre os dois e o mar, e não deu nem tempo de reagir quando a mulher, depois de se carregar com os maus espíritos do coitado, se virou para as ondas de Iemanjá e descarregou com os braços as energias terríveis na minha direção. Só consegui balbuciar um nãããã…!!! Tarde demais. Servi de para-raios de defunto no primeiro dia daquele ano em que, era de esperar, nada correu muito bem. Jamais esqueci a cena, ao contrário de outras tantas noites de 31 de dezembro passadas em ambientes mais chiques e reservados. A mistura de classes e credos é um patrimônio da nossa cidade que deve ser preservado.
Um dos meus grandes choques na França foi ver a praia loteada com treliças baixas. Para ter direito a um quadrado era necessário adquirir um tíquete. Bastante asséptico e algo deprimente. Não troco a baderna do litoral carioca por uma tarde na Côte d’Azur, mas concordo com o policial que deveríamos criar regras de conduta. Sujeira tem de dar cadeia. Qualquer madame, da Zona Sul ou do subúrbio, que jogasse o saquinho de biscoito do ladinho onde está sentada deveria ser vaiada e espancada com vinte chibatadas na Praça General Osório, e qualquer turba que avançasse semeando o terror deveria pagar com o exílio. O problema é botar em prática.





























































